sábado, 12 de junho de 2021

Cavar mais fundo na história

OS ÁRABES MUÇULMANOS, E NÃO OS EUROPEUS, COMEÇARAM O TRÁFICO DE ESCRAVOS PRETOS EM GRANDE ESCALA, séculos antes de os europeus chegarem à África, e castravam os escravos. Os muçulmanos calam sobre isso, por solidariedade religiosa.
O antropólogo e economista franco-senegalês Tidiane N’Diaye considera que o tráfico de escravos árabo-muçulmano realizado durante quase mil anos ainda não foi reconhecido em toda a dimensão. Falta virar essa página.
Tidiane N’Diaye publicou “O Genocídio Ocultado” em 2008, mas mais de uma década depois o que acusa de ser um encobrimento de práticas esclavagistas árabo-muçulmanas entre o sétimo e o décimo sexto, quase mil anos, ainda se mantém.
Sem ignorar o tráfico transatlântico que se segue durante quatro séculos, considera que “os árabes arrasaram a África Subsariana durante treze séculos ininterruptos” e que a “maioria dos milhões de homens por eles deportados desapareceu devido ao tratamento desumano e à castração generalizada”.
Para este investigador franco-senegalês, é mais do que tempo de “examinar e debater o genocidário tráfico negreiro árabo-muçulmano como se faz com o tráfico transatlântico”.
A sua introdução ao ensaio “O Genocídio Ocultado” é muito violenta.
Pode dizer-se que a escravatura arábo-muçulmana foi a mais dura?
É preciso reconhecer que as implosões pré-coloniais inauguradas pelos árabes destroem sem dúvida os povos africanos, que não tiveram um intervalo desde sua chegada. Como mostra a história, os árabes-muçulmanos estão na origem da calamidade que foi o tráfico e a escravatura, que praticaram do século VII ao século XX. E do sétimo ao décimo sexto século, durante quase mil anos, eles foram os únicos a praticar este comércio miserável, deportando quase 10 milhões de africanos, antes da entrada na cena dos europeus. A penetração árabe no continente negro iniciou a era das devastações permanentes de aldeias e as terríveis guerras santas realizadas pelos convertidos a fim de obter escravos de vizinhos que eram considerados pagãos. Quando isso não era suficiente, invadiram outros alegados “irmãos muçulmanos” e confiscavam os seus bens. Sob este acordo árabe-muçulmano, os povos africanos foram raptados e mantidos reféns permanentemente.
A recente islamização dos povos africanos excluiu as práticas de escravidão?
O islão só permite a escravização de não-muçulmanos. Mas em relação aos negros, os árabes utilizaram os textos eruditos como os de Al-Dimeshkri: “Nenhuma lei divina lhes foi revelada. Nenhum profeta foi mostrado em sua casa. Também são incapazes de conceber as noções de comando e de proibição, desejo e de abstinência. Têm uma mentalidade próxima da dos animais. A submissão dos povos do Sudão aos seus chefes e reis deve-se unicamente às leis e regulamentos que lhes são impostos da mesma maneira que aos animais. ”
Considera o autor existir um “desprezo dos árabes pelos negros no Darfur”. E mantém-se até à atualidade?
Sim. No inconsciente dos magrebinos, esta história deixou tantos vestígios que, para eles, um “negro” continua sendo um escravo. Eles nem podem conceber que os negros estejam entre eles. Basta ver o que está a acontecer na Mauritânia ou no Mali, onde os tuaregues do norte jamais aceitarão o poder negro. Os descendentes dos carrascos, como os das vítimas, tornaram-se solidários por motivos religiosos. Mas existem mercados de escravos na Líbia! Somente o debate permitirá superar essa situação. Recorde-se que em França, durante o comércio de escravos e a escravatura, havia filósofos do Iluminismo, como o Abade Gregório ou mesmo Montesquieu, que defendiam os negros, enquanto no mundo árabo-muçulmano os intelectuais mais respeitados, como Ibn Khaldun, também eram obscurantistas e afirmavam que os negros eram animais. Nenhum intelectual do Magrebe levantou a voz para defender a causa dos negros. É por esta razão que este genocídio assumiu tal magnitude e continua. No Líbano, na Síria, na Arábia Saudita, os trabalhadores domésticos africanos vivem em condições de escravatura. A divisão racial ainda é real na África.
Quando se fala de genocídio, o holocausto surge logo. Pode-se fazer comparações, apesar da duração temporal, com a do tráfico negreiro árabe?
Desde o início do comércio oriental de escravos que os muçulmanos árabes decidiram castrar os negros para evitar que se reproduzissem. Esses infelizes foram submetidos a terríveis situações para evitar que se integrassem e implantassem uma descendência nesta região do mundo. Sobre esse assunto, os comentários de uma rara brutalidade das ‘Mil e Uma Noites’ testemunham o tratamento terrível que os árabes reservavam aos cativos africanos nas suas sociedades esclavagistas, cruéis e depreciativas particularmente para os negros. A castração total, a dos eunucos, era uma operação extremamente perigosa. Quando realizada em adultos, matou entre 75% e 80% dos que a ela foram sujeitos. A taxa de mortalidade só foi menor nas crianças que eram castradas de forma sistemática. Mas 30% a 40% das crianças não sobreviveram à castração total. Hoje, a grande maioria dos descendentes dos escravos africanos são na verdade mestiços, nascidos de mulheres deportadas para haréns. Apenas 20% são negros. Essa é a diferença com o comércio transatlântico.
Afirma o autor que o tráfico negreiro transatlântico foi menos devastador que o comércio árabo-muçulmano. O que os diferencia?
E ele diz: eu só falo de genocídio para descrever o comércio de escravos transaariano e oriental. O comércio transatlântico, praticado por ocidentais, não pode ser comparado ao genocídio. A vontade de exterminar um povo não foi provada. Porque um escravo, mesmo em condições extremamente más, tinha um valor de mercado para o dono que o desejava produtivo e com longevidade. Para 9 a 11 milhões de deportados durante essa época, existem hoje 70 milhões de descendentes. O comércio árabo-muçulmano de escravos deportou 17 milhões de pessoas que tiveram apenas 1 milhão de descendentes por causa da maciça castração praticada durante quase catorze séculos.
Pode dizer-se que os árabes são os “inventores” da escravatura tal como a definimos hoje?
Na verdade, foi o Império Romano quem mais praticou a escravidão. Estima-se que em determinada altura quase 30% da população do império era escrava. Quanto à África, deve-se notar que, enquanto a propriedade privada não existia, as pessoas funcionariam em cooperativa. Quando a propriedade privada cresceu, eram precisos mais braços para trabalhar. Foi então que os conflitos começaram e cresceram e os vencidos foram então reduzidos à escravidão. Estima-se que, no século XIX, 14 milhões de africanos estavam escravizados. A escravatura interna existia antes e durante o tráfico árabo-muçulmano e transatlântico. Foram os árabes muçulmanos que começaram o tráfico de escravos em grande escala. Como Fernand Braudel apontou, o tráfico de escravos não foi uma invenção diabólica da Europa. São os muçulmanos árabes que estão na origem e o praticaram em grande escala. Se o tráfico atlântico durou de 1660 a 1790, os muçulmanos árabes atacaram os negros do sétimo ao vigésimo século e foram os únicos a praticar o tráfico de escravos.
O autor acusa o mundo árabe-muçulmano de fazer um genocídio meticulosamente preparado. E é uma questão de que não se fala porquê?
Este é realmente um pacto virtual selado entre os descendentes das vítimas e os algozes, que resulta em negação. Este pacto é virtual, mas a conspiração é muito real. Porque neste tipo de “Síndrome de Estocolmo ao estilo africano”, em que tudo se coloca sobre as costas do Ocidente. É como se os descendentes das vítimas tenham decidido nada dizer. Que os estudiosos e outros intelectuais árabes-muçulmanos tentassem fazer desaparecer essa realidade até ser uma mera lembrança dessa infâmia, como se nunca tivesse existido, até pode ser compreendido. No entanto, é difícil perceber a atitude de muitos cientistas – e mesmo de afro-americanos que se convertem cada vez mais ao islão -, pois é uma espécie de auto-censura. E é por isso que decidi publicar este livro, uma tentativa para quebrar o silêncio porque a história e antropologia não estão ao nível de uma crença religiosa ou de uma ideologia, mas de factos provados que não podemos esconder para sempre.
Como vê o papel de Portugal nesse trafico transatlântico?
Os portugueses tinham acidentalmente capturado um nobre mouro Adahu, em 1441. Este último ofereceu-se para comprar sua liberdade em troca de seis escravos negros e isso ocorreu em 1443. Depois disso, Dinis Dias desembarcou no Senegal e trouxe para Lagos quatro cativos, situação que marca o início do tráfico sistemático. Os portugueses foram, assim, os primeiros a importar escravos para o trabalho agrícola. Eles transportavam entre 700 e 800 cativos por ano desde os postos comerciais e fortes na costa africana. O pioneiro neste tráfego foi Gonçalves Lançarote em 1444. Em seguida, foi a vez do navegador Tristão Nunes comprar aos mouros um número significativo de cativos africanos, para aumentar o seu número em São Tomé e Portugal. Em 1552, 10% da população de Lisboa consistia de escravos mouros ou negros. E aqui também há um trabalho de memória a ser feito…
A colonização europeia de África suavizou a anterior crueldade sobre os povos do continente ou manteve-a?
Se essa colonização pudesse ter um rosto, seria aquele que está na origem de dramas inesquecíveis. Depois dos compromissos históricos dos pensadores iluministas com ideias racistas, desde meados do século XIX que também há teorias que se infiltraram nas cabeças de um grande número de intelectuais como a do racismo científico. Se no início das conquistas, os ingleses apresentavam a superioridade científica e técnica da sua civilização sobre a dos povos “atrasados”, em seguida procuraram uma “justificativa racial” para fazer a colonização. Sociólogos e cientistas britânicos decidiram elevar essa manobra ao apresentar os povos negros como sendo “seres vivos, semelhantes aos animais”. E foram inspirados por uma das referências científicas da época, Charles Darwin, que concluiu o seu trabalho da seguinte forma: “O homem subiu da condição de grande macaco para o homem civilizado, passando pelas fases do homem primitivo e do homem selvagem. O melhor grau de evolução foi alcançado pelo homem branco.” E todas essas construções levaram a calamidades como a do apartheid.
* Tidiane N’Diaye, antropólogo e economista franco-senegalês.
“O Genocídio Ocultado – Investigação histórica sobre o tráfico negreiro árabo-muçulmano” (233 páginas). Editora Gradiva. Colecção Trajectos. Lisboa. 2019.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Mar da Palha

Praia do Samouco. 9.30 da manhã. Dezenas de mariscadores, muitos deles ucranianos, avançam pelo Tejo em maré vaza. A amêijoa japonica, contaminada ou não por biotoxinas, contaminada ou não pelos temíveis metais pesados é uma tentação irresistível para quem tem que garantir sustento. O número de mariscadores é tal que já há uma roulote de comes e bebes. O lixo abandonado é mais do que muito. Um homem de etnia cigana com uma menina dos seus 6 anos insiste para que a pobre criança beba uma lata de coca cola pela manhã. Para me reduzir a angústia comemoro em silêncio a recusa da criança em ingerir tal veneno, preferindo a sandes que tinha na mão sujita.
Aumentar os impostos sobre bebidas açucaradas, ou simplesmente proibir tais venenos? Para quando fazer com o açúcar e os ácidos o mesmo que se fez com as gorduras hidrogenadas?! Nos rostos de todos o medo ou a desconfiança pela minha pessoa por não saberem quem sou. Talvez um inspector da ASAE?! Vou dando os bons dias a um ou outro para quebrar o medo. Relembro um trabalho etnográfico feito por uma brasileira na Mouraria: sou estudante, estudo o Tejo. Se alguém um dia me perguntar, está será a resposta.

 

sábado, 3 de abril de 2021

Mata-velhos e Pedaços de Telhas

A estória que vos vou contar passou-se há muito, muito tempo, numa galáxia distante. Nessa galáxia havia um planeta, e nesse planeta havia um país chamado Tugalistão. Ora aconteceu que nesse país havia uma fábrica de fósforos, e o governo ditatorial da altura quis proteger a sua fosforeira e ganhar uns trocos em multas. Daí fez uma lei a proibir foguear com isqueiro. Isqueiro só com licença ou, como estava escrito na dita lei, "debaixo de telha". Daí que o comum e ardiloso cidadão da dita república passou a trazer consigo um pedaço de telha, e se quisesse acender o seu cigarro com isqueiro, tratava de fazer isso debaixo da telha, driblando assim os policias! Não faltava expediente, nem ao estado, nem ao desembaraçado cidadão. Acontece que nesse tal Tugalistão houve uma revolução e a ditadura deu lugar à democracia.

Claro, a tal lei ridícula foi abolida. Aconteceu que nesse país, há muito, muito tempo, a democracia descobriu que as crises não conhecem regimes. A penúria voltou a bater à porta, e o tal governo da jovem democracia lá teve que arranjar dinheiro e expedientes para o sacar do bolso do cidadão contribuinte (ou contribuis ou levas no toutiço!). Vai daí uma lei nova: aos 50 anos passas a ser um geronte perigosíssimo e como tal tens que renovar a carta de condução. A coisa funcionava assim, nesse tal planeta numa galáxia distante, há muito, muito tempo: o médico de família não passa o atestado de aptidão médica. Para isso existem escolas, que diabo! Vais à escola (que cobra os seus honorários, que ninguém trabalha de graça). Pagas também ao médico, que nem te põe a vista em cima, mas pagando-lhe os 15 euritos te passa o respectivo atestado. E ganha o estado, que ele também não trabalha de graça. Ou seja, ninguém verificava se estavas apto ou não. Pagavas não bufavas, e pior, já não havia pedaço de telha que te valesse. Os computadores haviam chegado ao Tugalistão, e a democracia, já se sabe, é sempre mais eficiente do que ditaduras catéticas!
Mais curioso ainda, no tal país há muito, muito tempo, numa galáxia distante, o mesmo governo resolveu que os velhotes analfabetos vindos da tal ditadura também mereciam poder conduzir. Vai daí, trataram de parir uma lei que permitia que os tais velhotes comprassem uns carrinhos de baixa cilindrada, e os pudessem conduzir sem qualquer passagem por uma escola ou estudo de regras. Aquilo sempre dava para vender carros mata-velhos a bom preço, e ainda para papar as reformas dos mesmos.
Que o tal Tugalistão se tinha entretanto enchido de auto-estradas perto dos velhos caminhos onde os velhos sempre andaram, a pé, de burro, ou vá lá, de bicicleta, ninguém deu por nada. Agora com auto-estradas junto aos velhos caminhos, era ver os velhos a entrar em contra-mão nas auto-estradas, matando-se e matando os incautos apanhados numa contra-mão. Mas isso são apenas danos colaterais, que raio. Afinal o que importava?! Importava apenas enfiar as mãos nos bolsos de toda a gente e roubar à descarada. Mas atenção, com uma bela capa disfarçada de lei que toda a gente fingia que era muito séria e justificada. Felizmente, volto a frisar, isto foi há muito, muito tempo, e numa galáxia muito, muito distante.

A Culpa é do Algoritmo?

Vamos primeiro à definição do bicho :"Algoritmo é uma sequência finita de instruções bem definidas e não ambíguas, cada uma das quais devendo ser executadas mecânica ou electronicamente em um intervalo de tempo finito e com uma quantidade de esforço finita".

Posto isto, trata-se de uma rotina bem estabelecida em que, de forma mecânica ou electrónica - actualmente refere-se sobretudo a programação informática, definida por alguém e escrita, pelo próprio ou por procuração, para processar um determinado conjunto de dados. Dito de outra forma, de um lado entram dados em bruto, a máquina processa de acordo com o algoritmo e devolve os dados já processados. Pense em algo do tipo: 1, 1. Depois defina o algoritmo, pode ser um "+". O resultado? 2, obviamente.

Serve esta simples verdade de La Palise para evidenciar o que é simples: a culpa nunca é do algoritmo, é de quem o faz. O algoritmo, tal como o computador onde ele corre não tem conhecimento nem consciência. Ele apenas sabe fazer operações aritméticas ou operações lógicas. Olhando para a imagem ressalta algo: um processamento algorítmico não tolera o acaso. Tudo tem que ser previamente previsto e determinado. O melhor exemplo disto vem dos primórdios da informática, quando factos muito evidentes por vezes escapavam ao programador. Era o clássico "divisão por zero". Dividir um número qualquer diferente de zero por zero equivale a criar um infinito. Os computadores queimavam por não terem sido previamente programados para tal erro. Olhando de novo para a imagem ressalta de novo outra evidência: o acaso e a liberdade não cabem na frieza lógica de algoritmos e computadores. Não, não é o algoritmo nem a "inteligência artificial". Quem manda ainda, para o melhor e para o pior são as pessoas. Algumas pessoas. As que têm sede de poder e que gerem a seu belprazer os dados que nós, de forma consciente ou nem tanto vamos dando de graça. Eles dão-nos voz e um espelho bom para o nosso ego. Mas não é de graça. O click no gatinho fofinho, o like na notícia, verdadeira ou falsa, a avalanche de informação que lhes damos em troca desse veículo tem um preço. A época da ingenuidade pode finalmente ter um fim. A bem da nossa humanidade, no melhor que ela possa ter, ainda vai estando nas nossas mãos.

 

Terras-fetiche


Rio de Onor é terra fetiche para a antropologia portuguesa.

Aldeia fronteira com Espanha, serve para pôr em evidência anacronismos que parecem naturais para os poderes remotos de Lisboa e Madrid. Ali a fronteira também existe entre as duas Onores, mas tinha, e ainda tem, significados distintos e por vezes opostos aqueles que designam nações ou países. "Para lá do Marão mandam os que lá estão", ou, recitando o mantra que o nosso senhor Malinowski nos ensinou, "from the native point of view", vistos a partir da varanda, "para cá do Marão mandam os que cá estão".

Em rio de Onor ser português ou espanhol pouco importava para quem vivia em comunidade desde tempos remotos. Falava-se um dialecto derivado do asturo-leonês, partilhavam-se terras, lameiros, rebanhos, fornos comunitários. E se Madrid ou Lisboa impunham identidades diferentes, "os que lá estão" adaptavam-se às leis vindas de longe: quando se impunha uma fronteira à séria, havia sempre um contrabandista, um polícia (não raras vezes irmãos, ou primos ou parentes próximos) que lá iam driblando leis e fronteiras e tirando partido de uma linha imaginada por outros que também ali queriam mandar.
Hoje a realidade é outra, na União europeia não há fronteiras internas. Mas a realidade não se mede por instantâneos, há que olhar para um tempo longo e tentar apreender contemporaneidade. Ontem Rio de Onor português ou a Rihonor de Castilla estiveram como sempre juntas a seguir o duelo simbólico entre Portugal e Espanha. O futebol encarna hoje antigas dinâmicas identitárias tribais. Como eu teria gostado de ter estado ente eles a tomar o pulso a esses sinais de pertença. Quem terá vencido ali? Portugal, Espanha, ou, à semelhança do jogo, houve também ali um empate?! Saudades das aulas de antropologia!

 

A Raiz do Mal


Hoje imagino-me entrar por esta porta. No meu espírito paira a ideia estranha que muito do pó que aqui pisam são cinzas daqueles que neste lugar foram assassinados e queimados nos infames fornos crematórios.
Infâmia, uma e outra vez repetida. Não quero cair no erro fácil e perigoso de acreditar que a maldade reside apenas e só nos outros. Essa é justamente a ratoeira onde a humanidade tem caído uma e outra vez. Basta imaginar: e se de repente um poder imenso, sem limites nem sanções me caísse nas mãos, que faria eu? Eu, que tantas vezes me indigno, que tantas vezes penso que há gente que não merece existir; seria eu capaz de renunciar ao instinto básico e ao ódio, ou cairia facilmente nesse inebriante ódio que endeusa o Eu e demomiza o Outro? Que mistério é esse que leva uns á loucura e á orgia da morte, e outros á sobriedade e á coragem de lutar por um bem maior? Não, a solução nunca é acreditar que só os outros são detentores do mal. Essa é na verdade a raiz do mal. Não foram demónios que desceram á Terra para espalhar a morte: foram homens comuns a quem foi dado poder e que cederam aos instintos básicos, acabando por fazer coisas incomuns. Não é só o mal que habita os outros que nos deve manter vigilantes: é o mal que a qualquer momento nos pode seduzir que nos deve fazer reflectir.
 

Homens e Papagaios

 E se um homem e um papagaio forem afinal a mesma coisa?!

Chama-se Philippe Descola, é francês e foi viver entre os índios Hashuar do Equador para os estudar. Durante o seu estudo percebeu que, à semelhança de muitos outros povos não ocidentais, os Hashuar não possuem a palavra "natureza" pelo facto de não se quererem nem se sentirem diferentes ou opostos a ela!
Para os Hashuar um homem e um papagaio são a mesma coisa! Quando o Descola lhes fazia ver que um papagaio era verde, tinha penas e voava, e que um homem não tinha penas, não era verde e não voava, os índios ripostavam: sim, nós sabemos. fisicamente somos muito diferentes. Mas na essência, na alma, um índio e um papagaio são a mesma coisa.

Ora, esta visão do mundo e da nossa relação com ele pode ser muito didáctica e proporcionar uma forma de relacionamento com a Terra mais equilibrada e saudável. O que se retira daqui é o seguinte: a nossa relação com o mundo é, como não poderia deixar de ser, uma construção cultural.
Acontece que na cultura ocidental a nossa relação com o mundo é de conquista e domínio. Por exemplo, na Bíblia está escrito "Crescei, multiplicai-vos e dominai o mundo". O que o sábio Deus não disse é que a Terra é finita, e que essa visão pode ser uma catástrofe anunciada.

Na tradição ocidental e sobretudo a partir do século XVIII o ocidente criou a dicotomia "nós humanos" vs "eles animais, natureza". Nós racionais, eles irracionais. Nós seres com sentimento e emoções, eles não. Eles não sentem, nós sentimos. Curiosamente no ocidente a nossa construção social reconhece que na fisicalidade todos somos iguais (somos todos feitos dos mesmos átomos e moléculas), mas na espiritualidade somos diferentes da suposta "Natureza".
Uma visão exactamente oposta à visão dos Hashuar que dizem que na espiritualidade somos todos iguais. A sua cosmogonia é muito mais equilibrada, homem, natureza, rios ou papagaios, somos tudo a mesma coisa.
Eles não existem para crescer, multiplicar-se e dominar o mundo. Eles retiram do seu meio apenas aquilo de que necessitam para viver e não usam a lógica da acumulação, do lucro ou do domínio. Vem isto a propósito das infames touradas: O touro não é, na visão proposta dos Hashuar, muito diferente de um homem: ele sente, tem medo e quer viver em paz como qualquer um de nós.
A algumas pessoas convém acreditar no contrário. É verdade que touradas são tradição. Mas também é verdade que a cultura é dinâmica, não é algo estático no tempo. A civilização constrói-se contra a tradição.
Já foi tradição matar condenados em praça pública, lutas de gladiadores, escravatura, proibição de voto às mulheres, só para dar alguns exemplos. A tradição, quando indigna e cruel deve ser deixada no passado. Nada justifica hoje o espectáculo cruel de tortura e morte animal. Isso não nos faz grandes: ao contrário, mantém-nos presos a um passado cruel que todos nós podemos hoje repudiar.
É verdade que o Homem se ergueu enquanto tal quando começou a comer carne, e que todos nós vivemos num universo cujas regras e leis não escrevemos. Mas também é verdade que esse mesmo universo nos permite criar quadros conceptuais de rosto mais humano. Há uma fronteira clara entre matar por necessidade de alimentos e matar por prazer sádico.
Os Hasuar matam e comem animais. E se entendo que a primeira me repugna menos, ainda assim podemos imaginar um mundo melhor onde um dia não será necessário matar para viver. Por isso manifesto a minha vontade: a tourada é um espectáculo cruel e indigno e deve ir parar ao caixote do lixo da história.