sábado, 21 de fevereiro de 2026

Paraíso ao Sul

 

 
Nicinho sabia o que era um comboio: tinha ido à feira da vila com os pais há uns meses, e por acaso a camioneta da carreira passou pela velha estação de comboios quando uma composição chegava à estação. Lembrava-se muito bem da sua excitação de menino ao ver a máquina enorme, de metal cromado, reluzente, da mesma cor do metal da bicicleta que vira numa loja da vila e que o pai lhe prometeu se passasse no exame da quarta classe, dali a um ano. 
 
Tinha que se esforçar muito para passar no exame e receber o ansiado presente. Mas naquele dia o que ficou no seu pensamento foi o imponente comboio, ali bem na frente dos seus olhos, as rodas a chiar no metal contra metal, e a locomotiva fumegante a roncar na frente do conjunto. Também recordava os desenhos coloridos a azul das paredes da estação, com centenas de azulejos que mostravam a vida daquelas terras e que ele tão bem conhecia, como qualquer criança da sua idade: o mundo girava em função das colheitas, do trigo, do milho, do feijão, da vinha, ou até da criação de animais que serviam de bestas de carga ou para serem mortos e comidos. 
 
De onde vinha ou para onde ia o comboio não tinha ele a certeza; o seu entendimento não podia abranger o tamanho do mundo. Talvez Lisboa, que nunca vira e sonhava ver, ou quem sabe, ligada a alguma província ultramarina? Menino esperto e vivaz, com uns olhos negros, brilhantes como duas lanternas, e um corpo franzino e ágil. Do alto dos seus 10 anos Nicinho ainda não podia descortinar a real dimensão do mundo nem sonhar que esse mundo enorme esperava por ele e o haveria de devorar.
Havia na parede da escola, ao lado do enorme quadro de ardósia, uns quantos mapas que a professora ensinava com ar severo e rigoroso: “Portugal não é pequeno”, dizia a D. Alice, orgulhosa, enquanto mostrava um mapa de Portugal e das “províncias ultramarinas” sobreposto a outro, da velha Europa. enquanto apontava um pequeno rectângulo mal desenhado, que havia de corresponder a Portugal continental, e onde constavam as principais montanhas, rios, caminhos de ferro, portos, províncias, produção de alimentos, numa amalgama de informação que a sua imaginação de criança não abarcava.
Para ele o mundo, ou Portugal, ou o velho império que a professora ensinava não passavam muito além da aldeia onde nasceu e onde vivia com os pais e o irmão, ou a vila que ele adorava visitar, quando em altura de feiras a família aproveitava par comprar roupa ou calçado. 
 
Nicinho ia religiosamente todos os Domingos à missa com a mãe e o mano. Ás vezes escutava o padre a falar do paraíso, um sítio para onde os justos um dia iriam, e onde teriam o privilégio de poder olhar o rosto de Deus, ou do seu filho Jesus, sentado ao seu lado, à direita do pai. Mas para Nicinho o paraíso bem podia ser a feira da vila, com os seus doces, cavacas das caldas, cerejas no tempo delas, roupas e brinquedos, ou o incrível carrossel, onde bastava fechar os olhos e voar, no dorso de um cavalinho colorido feito de plástico. 
 
Se ele mandasse no mundo, o paraíso seria um dia de feira que nunca acabasse.
O pai ás vezes também ia à missa, mas a maioria das vezes ficava à porta a conversar com outros homens, ou até para aproveitar para tratar de algum assunto de homens, numa adega onde nuca faltavam os pipos cheios de vinho ou água-pé e um copo cheio de sarro que rodava mãos e bocas.
Todos os homens da aldeia possuíam um pedaço de vinha que garantia esse xarope alcoólico que escondia as dores do corpo cansado, deixava o espírito alienado, e garantia as vitaminas que a uva carregava. Era à volta desse ciclo de adegas ou da taberna da aldeia que os homens se juntava para falar dos seus assuntos, ás vezes triviais, outras vezes sérios. Era ali que se trocavam sementes, se emprestavam animais de carga, se combinava a alqueiva das terra, feitas com enxadas enormes e pesadas, ou se fazia rodar o arado ou a charrua entre vizinhos.
Foi num dessas peregrinações por adegas, onde acompanhava o pai, que o deixava bebericar como um homem que Nicinho escutou que havia estalado uma guerra lá nessas províncias ultramarinas. Jovens mancebos de 20 anos estavam a ser recrutados para a guerra, os pretos tinham-se revoltado, “pobres e mal agradecidos”, em vez de agradecerem a “civilização” que os brancos lhes levavam, - pelo menos era assim que escutavam na rádio, ou algum mais afortunado que sabia ler e escrever apanhava num ou outro jornal nacional, se bem que o medo e o lápis azul da censura e a PIDE cortassem quase tudo.
Mas havia também um vizinho que tinha vivido na América, regressara rico, comprara carro e tractor, e um precioso rádio a pilhas que permitia escutar a onda curta. A medo lá sintonizava o rádio à noite para escutar a voz da América ou a BBC, e essas não tinham o lápis azul a cortar, contavam uma estória diferente.
 
Um copo de água junto ao rádio evitava que o carro de escuta da PIDE pudesse detectar o rádio pelos aparelhos da polícia política do estado. Ainda que amordaçados, nem o regime, nem os seus esbiros sabujos puderam alguma vez calar a voz da verdade. 
 
O facto é que alguns desses mancebos nunca regressavam, e outros regressavam dentro de caixões.
A guerra perdurou, e passaram mais 10 anos. Nicinho já tinha ido à inspecção militar a Coimbra quando tinha feito 18 anos. Por decreto era agora um homem, e tinha obrigações a cumprir para com a nação. Desse dia recordava o gelo que sentiu, as paredes austeras do quartel a escorrer gotas de água, e a vergonha de ter que se despir perante centenas de rapazes como ele.
Despido de roupas e da sua dignidade, que desde sempre aprendera a guardar para si, recebera ali a primeira lição de que não era dono de si nem do seu corpo, doravante pertença também do estado e da nação, enquanto os poderosos donos de um império caduco assim o determinasse.
Acabara definitivamente colo da mãe, as corridas de bicicleta pelas ruas da aldeia, as brincadeira do toca-e-foge ou das escondidas com os amiguinhos de escola.
Na vida de Nicinho agora as mulheres eram outras, eram as raparigas da sua aldeia ou de aldeias próximas, que olhava com interesse e desejo crescente, numa febre que não sabia de onde vinha, e que apesar de ser sua, a vontade lhe era alheia. Era essa febre que comandava o seus desejo, de forma irreprimível e indomável.
 
Com os seus 20 anos e a quarta classe feita, sabendo ler e escrever muito bem - honra fosse feita à velha e austera professora - o destino de Nicinho estava traçado: como tantos milhares de jovem como ele, foi incorporado no exército português e destacado para a remota “província ultramarina” de Angola.
Subitamente tudo o que tinha aprendido na escola começava a encaixar: a guia de marcha e o bilhete de comboio da vila para Lisboa: finalmente entrara no gigante de metal cromado, e pela primeira vez viu Lisboa, reluzente nas suas colinas de telhados vermelhos, e o impressionante mar da palha, um imenso lençol de águas mansas onde os cacilheiros corriam num vai-e-vem incansável, que ele via do alto da Ajuda, no quartel onde fazia a recruta. 
 
Lisboa era linda, hipnótica, e o Tejo, pintado de amarelos e laranja quando o sol se punha, parecia um imenso mar de trigo, uma seara quase sem fim, uma seara de trigo a ondular na brisa doce do fim do dia. E havia a ponte, aquela imponente ponte suspensa feita de traves metálicas e de tirantes, suspensa em duas torres enormes, a ligar Lisboa e Almada, mandada construir pelo Salazar e justamente baptizada com o nome do “pai da nação”, o velho ditador despótico que conhecia o seu império de Portugal a Timor sem jamais ter saído da sua rotina pequenina entre Coimbra e Lisboa.
Haveria de lhe dizer o vizinho regressado da América, que havia por lá uma ponte igualzinha, numa cidade remota chamada São Francisco, onde vivera, e que lhe afiançava, até tinha parecenças com Lisboa.
Nicinho encarava a tropa entre a expectativa e o medo. Sabia que a guerra era coisa séria, como aliás aquela amostra que era a recruta lhe mostrava. fome não havia, entre a comida insípida do quartel e os mimos que o pai e a mãe lhe mandavam, havia comida suficiente para si e até para partilhar com camaradas de armas.
Ali aprendeu a regras e ordem militar, e aprendeu também dominar a sua mais fiel amiga, a sua nova amante de quem nunca se podia separar, noite e dia. A famosa metralhadora G3.
Carregador de 20 munições, haveria de ser a sua “amante” por quatro longos anos numa colónia remota, numa relação de amor/ódio que o haveria de acompanhar até ao dia em que regressou a Portugal.
Foi também ali que aprendeu a sua profissão que haveria de exercer depois de 4 anos de tropa e 3 de guerra: Nicinho era habilidoso de mãos e barbeiros eram sempre necessários. Barba rapada ou cuidada e cabelos curtos eram regra sem excepção e garantiam o mínimo de higiene e o controlo de pragas de piolhos, num pais onde o banho diário ainda era uma miragem para jovens, muitos vindos de aldeias remotas. Não era o seu caso, habituado que foi desde o berço ao banho regular.
A viagem de barco no Santa Maria entre Lisboa e Luanda foi uma aventura, o imenso de território de Angola, os caminhos de ferros e as províncias de Angola ensinadas no velho mapa da escola, quando era ainda menino, subitamente ganharam corpo e forma. Agora sim, falar do caminho de ferro de Benguela, das Lundas ou do Uige, tudo fazia sentido. Os comboios que aprendera a amar em criança eram agora parte de uma máquina terrível em que se viu metido.
 
Angola era o seu destino, em vez da sua amada aldeia e das raparigas novas que catrapiscava - havia uma, a Luísa, por quem tinha afecto especial e com quem gostaria de casar e fazer os seus filhos. Mas o namoro ficou suspenso, preso por um fio, um carta, um papel, um aerograma onde lhe escrevia para manter viva a esperança. Havia ainda os seus camaradas de armas, muitos deles analfabetos e ainda mais ignorantes do que ele, já que a escola era apenas a da vida e do campo. Letras não sabiam, nem sequer se tivessem o tamanho de um comboio. Era ele quem lhes escrevia os aerogramas, que conhecia namoros e anseios, que arranjava madrinhas de guerra para eles, e era também ele quem lhes cortava os cabelos e aparava as barbas.
 
Nicinho havia de regressar vivo da guerra, e aparentemente são. Mas nos seus olhos negros brilhantes nascera uma sombra que para sempre lhe toldou o brilho. Com aquilo que aprendera naqueles anos decidiu que teria doravante uma vida calma e que não dependeria da terra nem dos caprichos do sol ou da chuva: Abriu uma pequena barbearia, com um bonito espelho, cadeira de metal e almofadas de napa verde, e todos os artefactos que a profissão exigia: tesouras, pincéis, talco, máquinas de corte manuais, e um banco onde os homens se sentavam à espera de vez para serem atendidos, tudo com o esforço e empenho que a profissão exigia.
 
Outra coisa havia haviam mudado nele desde o regresso de África: a barba enorme, negra, que não voltou a cortar. Um dia perguntaram-lhe em tom de brincadeira porque é que ele, sendo barbeiro, mantinha aquelas barbas enormes de profeta. - “é promessa aos santos e a Deus”, disse ele, enquanto fixava os olhos no chão. As barbas nunca mais seriam rapadas.
A brincadeira morreu ali e nenhum homem voltaria a pronunciar-se sobre o tema. Nicinho era estimado por todos, e até os rapazinhos da aldeia gostavam dele. Quando a sua cadeira de barbeiro não se ajustava ao tamanho e altura dos petizes, ia buscar o alqueire que media o trigo a levar ao moleiro, para trazer farinha, e era esse o assentos dos mais pequenos. Desta forma lá ajustava a altura à função de cortar o cabelo dos meninos, e até mesmo os irrequietos sabiam que podiam confiar nele. 
 
Pouca gente sabia o que ele tinha vivido em África: Angola era tema tabu, raramente partilhou aquilo que por lá passou. Mas toda a aldeia sabia que ele, tal como outros jovens de aldeias vizinhas tinham vindo com traumas incompreensíveis, que acordavam de noite a gritar, que se atiravam ao chão quando havia festa na aldeia e se soltavam foguetes. Nicinho nunca se atirou ao chão por causa dos foguetes, mas no seu íntimo odiava o estampido daqueles engenhos de festa, que a ele traziam outros estampidos de volta.
Depois do regresso reencontrou a Luísa, e apesar do sentimento nunca ter esmorecido, 4 anos de separação e de guerra fizeram mossa. Havia coisas que Nicinho preferia esconder e fingir esquecer, e o álcool acabou por ser companhia e refúgio, dele, e por fim de Luísa.
 
Os filhos sonhados nunca foram gerados, e a aguardente acabaria por matar o a esperança da continuidade que a semente garante. O brilho dos olhos negros daquele homem, mais a esperança de futuro dele e da companheira morriam aos poucos. As suas vidas acabaram no abismo do álcool, único refúgio para a dor que não sentia no corpo, mas na alma. 
 
Por uma única vez Nicinho haveria de contar que a sua companhia havia sofrido um ataque dos “turras”. No negro da noite, no aquartelamento junto ao Zaire, uma chuva de granadas e de tiros fizeram da vida um inferno. Um camarada de armas tombara ao seu lado, atingido por uma granada, rosto e tronco desfeito , incapaz de ser reconhecido, tal a violência dos estilhaços. Valeu-lhe estar no sítio certo da trincheira; O estampido da granada foi terrível, mas a curva da trincheira e a terra protegeram o seu corpo.
Nos dias seguintes ao ataque tinham recebido ordens do comandante: o ataque não passaria impune: tinham que dar uma lição aos “turras”: a ordem foi simples e clara: ir à aldeia de onde supostamente partira o ataque, e matar tudo o que mexesse. E foi desta forma que aqueles homens foram cumprir a ordem. 
 
A matança foi geral: mulheres, homens, crianças, animais, tudo foi passado a G3. O sangue corria pelas ruas da aldeia, empapando a poeira. As cubatas ardiam, e um caterpilar que havia chegado abriu uma vala comum para esconder o massacre. Por uma única vez Nicinho afiançou que ele e os camaradas de armas, alguns deles idos de aldeias próximas, haviam enterrado alguns daqueles homens ainda vivos!
Jamais esqueceu (como se tal fosse possível) aquele episódio trágico, e para sempre recordou aqueles mortos, o velho sábio preto da aldeia a chorar os seus entes queridos mortos, a olhar nos seus olhos e a implorar que o matassem também. 
 
Nicinho fez-lhe a vontade, ele mesmo matou o preto velho. Só ficou a pairar o silêncio da morte, o crepitar do capim a arder, e o cheiro adocicado do sangue e da morte. Desde esse dia jamais voltaria a dormir um sono descansado, e o único alívio vinha da garrafa de aguardente.
Quando chegou a Angola aquela terra bonita parecia-lhe um paraíso ao sul. A terra fértil, a vegetação sem fim, as impalas negras, os elefantes imponentes, as girafas exóticas, tudo lhe parecia um paraíso natural saído dos livros da escola. Até o capim alto, onde um dia se sentou para descansar com os camaradas, encostados a um tronco que repentinamente se começou a mexer, lhe parecia bonito. O seu “tronco” era afinal uma jiboia a digerir um antílope! A guerra haveria de destruir aquele paraíso, bem como a paz e a pureza que levava e por lá perdeu.
Se havia paraíso, não seria Angola, nem sequer o éden que o padre pregava na missa de Domingo quando era criança. A feira da vila também havia deixado há muito de ser um paraíso sonhado, porque descobrira, tudo o que o homem toca está condenado a transformar-se num inferno.
E no entanto Nicinho nunca duvidou que o paraíso existia: mesmo que ele fosse feito apenas de esquecimento e ausência, sonhava ele que talvez fosse esse o melhor dos paraísos, o único e verdadeiro. Uma coisa é certa, o álcool não mais o abandonou, e se era prova de alguma coisa, era a de que as portas do paraíso e do inferno podem ser facilmente confundidas. Mas um dia descobriria, se era o rosto de Deus aquilo que veria quando entrasse na eternidade, ou o nada.
Não foi: quando o brilho do seus olhos morreu para a vida, um rosto lhe apareceu no espírito, calmo e sorridente. Era o rosto de um preto velho que anos antes tinha assassinado. Foi esse preto velho que o levou em direcção à luz, ténue e apetecível que se abria diante de si.
Do mais acerca do paraíso nada se soube, porque Deus é cioso e os seus segredos insondáveis. Nicinho repousava agora no seu caixão, barba grande, grisalha e muito bem aparada. 
 
Vida abreviada pela dor e sofrimento que não desejou nem mereceu, morria jovem, ainda antes de completar 50 anos. Anos antes tinha já morrido o velho e decrépito império feito sobre a conquista, domínio, escravatura e a morte dos negros que lá viviam desde sempre.

 
O mundo girou, Portugal voltou a ser aquilo que fora inicialmente: um pequeno e mal desenhado rectângulo nos confins (ou seria no início?) da velha Europa, sempre maior do que é em si mesmo, ainda a sonhar com impérios, mas não mais feitos de escravatura, morte e sangue. Esses só podem ser substrato para o sonho de novos impérios que só podem ser de entendimento, fraternidade e concórdia. Mas isso já nada significa para aqueles que lutaram, mataram e morreram por impérios que nunca foram seus. A esses pertence o paraíso. Mesmo que ele seja feito apenas e só de esquecimento e ausência.

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