sábado, 21 de fevereiro de 2026

Paraíso ao Sul

 

 
Nicinho sabia o que era um comboio: tinha ido à feira da vila com os pais há uns meses, e por acaso a camioneta da carreira passou pela velha estação de comboios quando uma composição chegava à estação. Lembrava-se muito bem da sua excitação de menino ao ver a máquina enorme, de metal cromado, reluzente, da mesma cor do metal da bicicleta que vira numa loja da vila e que o pai lhe prometeu se passasse no exame da quarta classe, dali a um ano. 
 
Tinha que se esforçar muito para passar no exame e receber o ansiado presente. Mas naquele dia o que ficou no seu pensamento foi o imponente comboio, ali bem na frente dos seus olhos, as rodas a chiar no metal contra metal, e a locomotiva fumegante a roncar na frente do conjunto. Também recordava os desenhos coloridos a azul das paredes da estação, com centenas de azulejos que mostravam a vida daquelas terras e que ele tão bem conhecia, como qualquer criança da sua idade: o mundo girava em função das colheitas, do trigo, do milho, do feijão, da vinha, ou até da criação de animais que serviam de bestas de carga ou para serem mortos e comidos. 
 
De onde vinha ou para onde ia o comboio não tinha ele a certeza; o seu entendimento não podia abranger o tamanho do mundo. Talvez Lisboa, que nunca vira e sonhava ver, ou quem sabe, ligada a alguma província ultramarina? Menino esperto e vivaz, com uns olhos negros, brilhantes como duas lanternas, e um corpo franzino e ágil. Do alto dos seus 10 anos Nicinho ainda não podia descortinar a real dimensão do mundo nem sonhar que esse mundo enorme esperava por ele e o haveria de devorar.
Havia na parede da escola, ao lado do enorme quadro de ardósia, uns quantos mapas que a professora ensinava com ar severo e rigoroso: “Portugal não é pequeno”, dizia a D. Alice, orgulhosa, enquanto mostrava um mapa de Portugal e das “províncias ultramarinas” sobreposto a outro, da velha Europa. enquanto apontava um pequeno rectângulo mal desenhado, que havia de corresponder a Portugal continental, e onde constavam as principais montanhas, rios, caminhos de ferro, portos, províncias, produção de alimentos, numa amalgama de informação que a sua imaginação de criança não abarcava.
Para ele o mundo, ou Portugal, ou o velho império que a professora ensinava não passavam muito além da aldeia onde nasceu e onde vivia com os pais e o irmão, ou a vila que ele adorava visitar, quando em altura de feiras a família aproveitava par comprar roupa ou calçado. 
 
Nicinho ia religiosamente todos os Domingos à missa com a mãe e o mano. Ás vezes escutava o padre a falar do paraíso, um sítio para onde os justos um dia iriam, e onde teriam o privilégio de poder olhar o rosto de Deus, ou do seu filho Jesus, sentado ao seu lado, à direita do pai. Mas para Nicinho o paraíso bem podia ser a feira da vila, com os seus doces, cavacas das caldas, cerejas no tempo delas, roupas e brinquedos, ou o incrível carrossel, onde bastava fechar os olhos e voar, no dorso de um cavalinho colorido feito de plástico. 
 
Se ele mandasse no mundo, o paraíso seria um dia de feira que nunca acabasse.
O pai ás vezes também ia à missa, mas a maioria das vezes ficava à porta a conversar com outros homens, ou até para aproveitar para tratar de algum assunto de homens, numa adega onde nuca faltavam os pipos cheios de vinho ou água-pé e um copo cheio de sarro que rodava mãos e bocas.
Todos os homens da aldeia possuíam um pedaço de vinha que garantia esse xarope alcoólico que escondia as dores do corpo cansado, deixava o espírito alienado, e garantia as vitaminas que a uva carregava. Era à volta desse ciclo de adegas ou da taberna da aldeia que os homens se juntava para falar dos seus assuntos, ás vezes triviais, outras vezes sérios. Era ali que se trocavam sementes, se emprestavam animais de carga, se combinava a alqueiva das terra, feitas com enxadas enormes e pesadas, ou se fazia rodar o arado ou a charrua entre vizinhos.
Foi num dessas peregrinações por adegas, onde acompanhava o pai, que o deixava bebericar como um homem que Nicinho escutou que havia estalado uma guerra lá nessas províncias ultramarinas. Jovens mancebos de 20 anos estavam a ser recrutados para a guerra, os pretos tinham-se revoltado, “pobres e mal agradecidos”, em vez de agradecerem a “civilização” que os brancos lhes levavam, - pelo menos era assim que escutavam na rádio, ou algum mais afortunado que sabia ler e escrever apanhava num ou outro jornal nacional, se bem que o medo e o lápis azul da censura e a PIDE cortassem quase tudo.
Mas havia também um vizinho que tinha vivido na América, regressara rico, comprara carro e tractor, e um precioso rádio a pilhas que permitia escutar a onda curta. A medo lá sintonizava o rádio à noite para escutar a voz da América ou a BBC, e essas não tinham o lápis azul a cortar, contavam uma estória diferente.
 
Um copo de água junto ao rádio evitava que o carro de escuta da PIDE pudesse detectar o rádio pelos aparelhos da polícia política do estado. Ainda que amordaçados, nem o regime, nem os seus esbiros sabujos puderam alguma vez calar a voz da verdade. 
 
O facto é que alguns desses mancebos nunca regressavam, e outros regressavam dentro de caixões.
A guerra perdurou, e passaram mais 10 anos. Nicinho já tinha ido à inspecção militar a Coimbra quando tinha feito 18 anos. Por decreto era agora um homem, e tinha obrigações a cumprir para com a nação. Desse dia recordava o gelo que sentiu, as paredes austeras do quartel a escorrer gotas de água, e a vergonha de ter que se despir perante centenas de rapazes como ele.
Despido de roupas e da sua dignidade, que desde sempre aprendera a guardar para si, recebera ali a primeira lição de que não era dono de si nem do seu corpo, doravante pertença também do estado e da nação, enquanto os poderosos donos de um império caduco assim o determinasse.
Acabara definitivamente colo da mãe, as corridas de bicicleta pelas ruas da aldeia, as brincadeira do toca-e-foge ou das escondidas com os amiguinhos de escola.
Na vida de Nicinho agora as mulheres eram outras, eram as raparigas da sua aldeia ou de aldeias próximas, que olhava com interesse e desejo crescente, numa febre que não sabia de onde vinha, e que apesar de ser sua, a vontade lhe era alheia. Era essa febre que comandava o seus desejo, de forma irreprimível e indomável.
 
Com os seus 20 anos e a quarta classe feita, sabendo ler e escrever muito bem - honra fosse feita à velha e austera professora - o destino de Nicinho estava traçado: como tantos milhares de jovem como ele, foi incorporado no exército português e destacado para a remota “província ultramarina” de Angola.
Subitamente tudo o que tinha aprendido na escola começava a encaixar: a guia de marcha e o bilhete de comboio da vila para Lisboa: finalmente entrara no gigante de metal cromado, e pela primeira vez viu Lisboa, reluzente nas suas colinas de telhados vermelhos, e o impressionante mar da palha, um imenso lençol de águas mansas onde os cacilheiros corriam num vai-e-vem incansável, que ele via do alto da Ajuda, no quartel onde fazia a recruta. 
 
Lisboa era linda, hipnótica, e o Tejo, pintado de amarelos e laranja quando o sol se punha, parecia um imenso mar de trigo, uma seara quase sem fim, uma seara de trigo a ondular na brisa doce do fim do dia. E havia a ponte, aquela imponente ponte suspensa feita de traves metálicas e de tirantes, suspensa em duas torres enormes, a ligar Lisboa e Almada, mandada construir pelo Salazar e justamente baptizada com o nome do “pai da nação”, o velho ditador despótico que conhecia o seu império de Portugal a Timor sem jamais ter saído da sua rotina pequenina entre Coimbra e Lisboa.
Haveria de lhe dizer o vizinho regressado da América, que havia por lá uma ponte igualzinha, numa cidade remota chamada São Francisco, onde vivera, e que lhe afiançava, até tinha parecenças com Lisboa.
Nicinho encarava a tropa entre a expectativa e o medo. Sabia que a guerra era coisa séria, como aliás aquela amostra que era a recruta lhe mostrava. fome não havia, entre a comida insípida do quartel e os mimos que o pai e a mãe lhe mandavam, havia comida suficiente para si e até para partilhar com camaradas de armas.
Ali aprendeu a regras e ordem militar, e aprendeu também dominar a sua mais fiel amiga, a sua nova amante de quem nunca se podia separar, noite e dia. A famosa metralhadora G3.
Carregador de 20 munições, haveria de ser a sua “amante” por quatro longos anos numa colónia remota, numa relação de amor/ódio que o haveria de acompanhar até ao dia em que regressou a Portugal.
Foi também ali que aprendeu a sua profissão que haveria de exercer depois de 4 anos de tropa e 3 de guerra: Nicinho era habilidoso de mãos e barbeiros eram sempre necessários. Barba rapada ou cuidada e cabelos curtos eram regra sem excepção e garantiam o mínimo de higiene e o controlo de pragas de piolhos, num pais onde o banho diário ainda era uma miragem para jovens, muitos vindos de aldeias remotas. Não era o seu caso, habituado que foi desde o berço ao banho regular.
A viagem de barco no Santa Maria entre Lisboa e Luanda foi uma aventura, o imenso de território de Angola, os caminhos de ferros e as províncias de Angola ensinadas no velho mapa da escola, quando era ainda menino, subitamente ganharam corpo e forma. Agora sim, falar do caminho de ferro de Benguela, das Lundas ou do Uige, tudo fazia sentido. Os comboios que aprendera a amar em criança eram agora parte de uma máquina terrível em que se viu metido.
 
Angola era o seu destino, em vez da sua amada aldeia e das raparigas novas que catrapiscava - havia uma, a Luísa, por quem tinha afecto especial e com quem gostaria de casar e fazer os seus filhos. Mas o namoro ficou suspenso, preso por um fio, um carta, um papel, um aerograma onde lhe escrevia para manter viva a esperança. Havia ainda os seus camaradas de armas, muitos deles analfabetos e ainda mais ignorantes do que ele, já que a escola era apenas a da vida e do campo. Letras não sabiam, nem sequer se tivessem o tamanho de um comboio. Era ele quem lhes escrevia os aerogramas, que conhecia namoros e anseios, que arranjava madrinhas de guerra para eles, e era também ele quem lhes cortava os cabelos e aparava as barbas.
 
Nicinho havia de regressar vivo da guerra, e aparentemente são. Mas nos seus olhos negros brilhantes nascera uma sombra que para sempre lhe toldou o brilho. Com aquilo que aprendera naqueles anos decidiu que teria doravante uma vida calma e que não dependeria da terra nem dos caprichos do sol ou da chuva: Abriu uma pequena barbearia, com um bonito espelho, cadeira de metal e almofadas de napa verde, e todos os artefactos que a profissão exigia: tesouras, pincéis, talco, máquinas de corte manuais, e um banco onde os homens se sentavam à espera de vez para serem atendidos, tudo com o esforço e empenho que a profissão exigia.
 
Outra coisa havia haviam mudado nele desde o regresso de África: a barba enorme, negra, que não voltou a cortar. Um dia perguntaram-lhe em tom de brincadeira porque é que ele, sendo barbeiro, mantinha aquelas barbas enormes de profeta. - “é promessa aos santos e a Deus”, disse ele, enquanto fixava os olhos no chão. As barbas nunca mais seriam rapadas.
A brincadeira morreu ali e nenhum homem voltaria a pronunciar-se sobre o tema. Nicinho era estimado por todos, e até os rapazinhos da aldeia gostavam dele. Quando a sua cadeira de barbeiro não se ajustava ao tamanho e altura dos petizes, ia buscar o alqueire que media o trigo a levar ao moleiro, para trazer farinha, e era esse o assentos dos mais pequenos. Desta forma lá ajustava a altura à função de cortar o cabelo dos meninos, e até mesmo os irrequietos sabiam que podiam confiar nele. 
 
Pouca gente sabia o que ele tinha vivido em África: Angola era tema tabu, raramente partilhou aquilo que por lá passou. Mas toda a aldeia sabia que ele, tal como outros jovens de aldeias vizinhas tinham vindo com traumas incompreensíveis, que acordavam de noite a gritar, que se atiravam ao chão quando havia festa na aldeia e se soltavam foguetes. Nicinho nunca se atirou ao chão por causa dos foguetes, mas no seu íntimo odiava o estampido daqueles engenhos de festa, que a ele traziam outros estampidos de volta.
Depois do regresso reencontrou a Luísa, e apesar do sentimento nunca ter esmorecido, 4 anos de separação e de guerra fizeram mossa. Havia coisas que Nicinho preferia esconder e fingir esquecer, e o álcool acabou por ser companhia e refúgio, dele, e por fim de Luísa.
 
Os filhos sonhados nunca foram gerados, e a aguardente acabaria por matar o a esperança da continuidade que a semente garante. O brilho dos olhos negros daquele homem, mais a esperança de futuro dele e da companheira morriam aos poucos. As suas vidas acabaram no abismo do álcool, único refúgio para a dor que não sentia no corpo, mas na alma. 
 
Por uma única vez Nicinho haveria de contar que a sua companhia havia sofrido um ataque dos “turras”. No negro da noite, no aquartelamento junto ao Zaire, uma chuva de granadas e de tiros fizeram da vida um inferno. Um camarada de armas tombara ao seu lado, atingido por uma granada, rosto e tronco desfeito , incapaz de ser reconhecido, tal a violência dos estilhaços. Valeu-lhe estar no sítio certo da trincheira; O estampido da granada foi terrível, mas a curva da trincheira e a terra protegeram o seu corpo.
Nos dias seguintes ao ataque tinham recebido ordens do comandante: o ataque não passaria impune: tinham que dar uma lição aos “turras”: a ordem foi simples e clara: ir à aldeia de onde supostamente partira o ataque, e matar tudo o que mexesse. E foi desta forma que aqueles homens foram cumprir a ordem. 
 
A matança foi geral: mulheres, homens, crianças, animais, tudo foi passado a G3. O sangue corria pelas ruas da aldeia, empapando a poeira. As cubatas ardiam, e um caterpilar que havia chegado abriu uma vala comum para esconder o massacre. Por uma única vez Nicinho afiançou que ele e os camaradas de armas, alguns deles idos de aldeias próximas, haviam enterrado alguns daqueles homens ainda vivos!
Jamais esqueceu (como se tal fosse possível) aquele episódio trágico, e para sempre recordou aqueles mortos, o velho sábio preto da aldeia a chorar os seus entes queridos mortos, a olhar nos seus olhos e a implorar que o matassem também. 
 
Nicinho fez-lhe a vontade, ele mesmo matou o preto velho. Só ficou a pairar o silêncio da morte, o crepitar do capim a arder, e o cheiro adocicado do sangue e da morte. Desde esse dia jamais voltaria a dormir um sono descansado, e o único alívio vinha da garrafa de aguardente.
Quando chegou a Angola aquela terra bonita parecia-lhe um paraíso ao sul. A terra fértil, a vegetação sem fim, as impalas negras, os elefantes imponentes, as girafas exóticas, tudo lhe parecia um paraíso natural saído dos livros da escola. Até o capim alto, onde um dia se sentou para descansar com os camaradas, encostados a um tronco que repentinamente se começou a mexer, lhe parecia bonito. O seu “tronco” era afinal uma jiboia a digerir um antílope! A guerra haveria de destruir aquele paraíso, bem como a paz e a pureza que levava e por lá perdeu.
Se havia paraíso, não seria Angola, nem sequer o éden que o padre pregava na missa de Domingo quando era criança. A feira da vila também havia deixado há muito de ser um paraíso sonhado, porque descobrira, tudo o que o homem toca está condenado a transformar-se num inferno.
E no entanto Nicinho nunca duvidou que o paraíso existia: mesmo que ele fosse feito apenas de esquecimento e ausência, sonhava ele que talvez fosse esse o melhor dos paraísos, o único e verdadeiro. Uma coisa é certa, o álcool não mais o abandonou, e se era prova de alguma coisa, era a de que as portas do paraíso e do inferno podem ser facilmente confundidas. Mas um dia descobriria, se era o rosto de Deus aquilo que veria quando entrasse na eternidade, ou o nada.
Não foi: quando o brilho do seus olhos morreu para a vida, um rosto lhe apareceu no espírito, calmo e sorridente. Era o rosto de um preto velho que anos antes tinha assassinado. Foi esse preto velho que o levou em direcção à luz, ténue e apetecível que se abria diante de si.
Do mais acerca do paraíso nada se soube, porque Deus é cioso e os seus segredos insondáveis. Nicinho repousava agora no seu caixão, barba grande, grisalha e muito bem aparada. 
 
Vida abreviada pela dor e sofrimento que não desejou nem mereceu, morria jovem, ainda antes de completar 50 anos. Anos antes tinha já morrido o velho e decrépito império feito sobre a conquista, domínio, escravatura e a morte dos negros que lá viviam desde sempre.

 
O mundo girou, Portugal voltou a ser aquilo que fora inicialmente: um pequeno e mal desenhado rectângulo nos confins (ou seria no início?) da velha Europa, sempre maior do que é em si mesmo, ainda a sonhar com impérios, mas não mais feitos de escravatura, morte e sangue. Esses só podem ser substrato para o sonho de novos impérios que só podem ser de entendimento, fraternidade e concórdia. Mas isso já nada significa para aqueles que lutaram, mataram e morreram por impérios que nunca foram seus. A esses pertence o paraíso. Mesmo que ele seja feito apenas e só de esquecimento e ausência.

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Encontros destrutivos

 Quando os espanhóis chegaram ao que é hoje o México encontraram uma civilização muito avançada, os Astecas. Cidades enormes, organização social complexa, matemática e astronomia avançadas. Mas era também uma sociedade agonistica, alicerçada na guerra, no terror, nos sacrifícios humanos constantes. Cortez encontrou-se com Montezuma, o imperador, porque era um conquistador e tinha avidez por ouro, que os Astecas possuíam. E tinha superioridade militar. O imperador bebia por uma taça que era um crânio humano. Cortez ficou impressionado e perguntou porquê beber por um crânio humano, ao que imperador respondeu: "é o crânio do meu irmão". Um dia ele disse que haveria de fazer do meu crânio uma taça por onde beberia, agora sou eu que bebo pelo crânio dele"! Esta realidade está bem retratada no filme "Apocalipto" do Mel Gibson. Mais a sul Pizarro encontrou outro império, o Inca. Era extenso, ia desde o Peru à Patagónia, não tinha escrita, e era um império apolíneo, doce, pacífico, quando comparado com os Maias e os Astecas. Mas também tinha sacrifícios humanos, algo que horrorizava europeus, que colocava os incas na classe de selvagens. Na Europa não se faziam sacrifícios humanos há milhares de anos, e as oferendas humanas ao deus Baal estão bem explícitas na bíblia, sendo Belzebu (o diabo) a encarnação de Baal. Os incas, apesar de pacíficos, foram também dizimados.  Já no território que é hoje o Brasil não havia qualquer civilização. Desconheciam os metais, eram nómadas, guerreavam-se entre si, o canibalismo era comum. O primeiro encontro foi pacífico. Os índios foram até às caravelas de Cabral. Está tudo na carta do achamento do Brasil. Causaram estranheza pela nudez, pela ausência da noção de pudor, e apropriavam-se dos objectos a bordo, porque desconheciam a propriedade privada. O choque foi inevitável, e juntamente com as doenças introduzidas pelos portugueses e demais europeus, para as quais não tinham imunidade, fizeram o genocídio. A simples gripe, o sarampo, a varíola... Terão matado milhões, embora não se saiba quantos, porque o território era gigantesco e não existiam censos. O que eu saliento é o seguinte: foi um genocídio sem justificação, não pelos óbvios padrões de hoje, mas pelos não tão óbvios padrões da época. O choque cultural, a avidez por riquezas, a falta de escrúpulos, a extrema fragilidade da vida, a falta de respeito por ela, fizeram o resto. No entanto, o meu enfoque é evitar a ratoeira de julgar épocas por outros valores que não os vigentes na altura. É errado, inútil, desonesto e perigoso, e pior, desvia o foco, atribui culpas e responsabilidades de hoje a pessoas que já estão mortas há séculos. No Brasil os brancos ofereciam roupas contaminadas com variola aos índios com o propósito de os matar até ao início do século XX. Hoje, fazendeiros matam índios e roubam terra, e religiosos destroem as suas culturas. Isso é crime pela nossa escala de valores actuais. O Brasil possui uma bela constituição, e a carta universal dos direitos humanos também é válida por lá. O que eu vejo é uma acusação comum e corrente de diabilozação do antigo colonizador, cujo ódio se estende até aos portugueses de hoje, e uma ausência de assumpção dos brasileiros da sua história, do seu passado, e sobretudo da sua responsabilidade hoje. É desonesto, infantil, e injusto, e sobretudo inútil para resolver os problemas.
Sabemos porque é assim, vem nos compêndios de antropologia. A criação de nações, as identidades nacionais necessitam sempre de um inimigo, de um oposto (mau), contra um "nós" bom. Os portugueses possuem o seu "maus": a Espanha, de onde nunca vem "nem bom vento nem bom casamento". A identidade nacional brasileira, ainda em plena construção da sua "nation building" foi feita pelas elites contra o velho colonizador "mau". Serviu muito bem o Brasil, cuja identidade nacional ninguém discute, mas teve um preço elevado: distorção da história, fecho sobe si mesmo (o brasileiro comum não escuta nada além do seu português, outras línguas tiveram o ensino proibido para evitar separações, por exemplo o alemão e o italiano). Para o brasileiro comum o passado é um vazio, um buraco negro, ou uma narrativa simplista de um Brasil que sempre existiu, o que é obviamente falso, e que o português apenas roubou, explorou, escravizou e matou. Não é verdade. Foi também isso, mas foi mais do que isso. Portugal criou, a bem ou a mal, um embrião de nação brasileira, que hoje é um país, (e um estado falhado), mas o repertório de que só souberam roubar "nosso ouro" é simplesmente falso. O Brasil e Portugal eram à época um único país, e apenas uma pequena parte desse ouro atravessou o Atlântico.
Quanto a nós portugueses, compete conhecer a nossa história por inteiro. Teve esse lado desumano, pavoroso, ignóbil. É nossa obrigação assumir isso com verdade e rigor. A escravatura, a morte dos índios, o colonialismo foram realidades irrefutáveis. Mas não é menos verdade, fomos inovadores, arriscámos ir desbravar mares nunca antes navegados, criámos uma revolução marítima, geográfica, cartográfica, astronómica. Bem ou mal, a globalização foi iniciada pelos portugueses. Valorizemos o que os nossos antepassados fizeram de bom, deploremos o que fizeram de errado. Sobretudo temos a obrigação de estudar esse passado, aprofundar, corrigir narrativas distorcidas que sempre servem o presente (Portugal ainda está muito agarrado à narrativa do estado novo). Mas não se apague a história com o intuito de aplanar tudo, queimar esse passado, e sobre essa terra queimada criar a nova e derradeira utopia, convencidos que hoje somos melhores e prefeitos. Não somos, e se isso acontecer será a semente da tragédia, porque ignorar ou apagar o passado condena-nos a repeti-lo. Eu não irei por aí!

E se um homem e um papagaio forem afinal a mesma coisa?

 


Chama-se Philippe Descola, é francês e foi viver entre os índios Hashuar do Equador para os estudar. Durante o seu estudo percebeu que, à semelhança de muitos outros povos não ocidentais, os Hashuar não possuem a palavra "natureza" pelo facto de não se quererem nem se sentirem diferentes ou opostos a ela! Para os Hashuar um homem e um papagaio são a mesma coisa! Quando o Descola lhes fazia ver que um papagaio era verde, tinha penas e voava, e que um homem não tinha penas, não era verde e não voava, os índios ripostavam: sim, nós sabemos. fisicamente somos muito diferentes. Mas na essência, na alma, um índio e um papagaio são a mesma coisa. Ora, esta visão do mundo e da nossa relação com ele pode ser muito didáctica e proporcionar uma forma de relacionamento com a Terra mais equilibrada e saudável. O que se retira daqui é o seguinte: a nossa relação com o mundo é, como não poderia deixar de ser, uma construção cultural. Acontece que na cultura ocidental a nossa relação com o mundo é de conquista e domínio. Por exemplo, na Bíblia está escrito "Crescei, multiplicai-vos e dominai o mundo". O que o sábio Deus não disse é que a Terra é finita, e que essa visão pode ser uma catástrofe anunciada. Na tradição ocidental e sobretudo a partir do século XVIII o ocidente criou a dicotomia "nós humanos" vs "eles animais, natureza". Nós racionais, eles irracionais. Nós seres com sentimento e emoções, eles não. Eles não sentem, nós sentimos. Curiosamente no ocidente a nossa construção social reconhece que na fisicalidade todos somos iguais (somos todos feitos dos mesmos átomos e moléculas), mas na espiritualidade somos diferentes da suposta "Natureza". Uma visão exactamente oposta à visão dos Hashuar que dizem que na espiritualidade somos todos iguais. A sua cosmogonia é muito mais equilibrada, homem, natureza, rios ou papagaios, somos tudo a mesma coisa. Eles não existem para crescer, multiplicar-se e dominar o mundo. Eles retiram do seu meio apenas aquilo de que necessitam para viver e não usam a lógica da acumulação, do lucro ou do domínio. Vem isto a propósito das infamantes touradas: O touro não é, na visão proposta dos Hashuar, muito diferente de um homem: ele sente, tem medo e quer viver em paz como qualquer um de nós. A algumas pessoas convém acreditar no contrário. É verdade que touradas são tradição. Mas também é verdade que a cultura é dinâmica, não é algo estático no tempo. A civilização constrói-se contra a tradição. Já foi tradição matar condenados em praça pública, lutas de gladiadores, escravatura, proibição de voto às mulheres, só para dar alguns exemplos. A tradição, quando indigna e cruel deve ser deixada no passado. Nada justifica hoje o espectáculo cruel de tortura e morte animal. Isso não nos faz grandes: ao contrário, mantém-nos presos a um passado cruel que todos nós podemos hoje repudiar. É verdade que o homem se ergueu enquanto tal quando começou a comer carne, e que todos nós vivemos num universo cujas regras e leis não escrevemos. Mas também é verdade que esse mesmo universo nos permite criar quadros conceptuais de rosto mais humano. Há uma fronteira clara entre matar por necessidade de alimentos e matar por prazer sádico. Os Hasuar matam e comem animais. E se entendo que a primeira me repugna menos, ainda assim podemos imaginar um mundo melhor onde um dia não será necessário matar para viver. Por isso manifesto a minha vontade: a tourada é um espectáculo cruel e indigno e deve ir parar ao caixote do lixo da história.

Linguagem simbólica. In memoriam, Saudoso professor José Gabriel Pereira Bastos

 


Do saudoso José Gabriel Pereira Bastos, levado pela covid:
 
"Sérgio, estes “desenhos abstractos” são parte da linguagem simbólica dos índios Tukanos do Uaupés, na Amazónia Colombiana, estudados por Reichel-Dolmatoff.
I. Fiz publicar em Portugal (Análise psicológica, nº 2 / ISPA, Janeiro de 1978: 87-102) o artigo em que RD expunha este código, dado que as suas implicações científicas eram enormes - lado a lado com cada figuração geométrica, os informantes forneciam a tradução verbal, genericamente libidinal. Tínhamos na mão a "Pedra de Rosetta" do simbolismo libidinal.
Sem se aperceber das implicações da sua descoberta destes códigos, básicamente libidinais (embora os mencione como um "simbolismo universal"), escreveu o antropólogo: "Se a interpretação do simbolismo Desana seguiu uma orientação um tanto ou quanto Freudiana, isso não deriva de uma posição apriorística do autor, mas das convicções do informador ...". (in Desana. Le symbolisme universel des Indiens Tukano du Vaupés, Paris: Gallimard, 1973: 19)
II. Este simbolismo pode ser encontrado desde o paleolítico, em todo o mundo, nomeadamente nas fronteiras dos corpos, protegendo-os magicamente ou condenando-os (tatuagens, roupas femininas, cestaria e olaria, colares e pulseiras, paredes, janelas, portas e varandas das casas e igrejas, pavimentos da calçada portuguesa, monumentos, estruturas arquitectónicas, esculturas e inscrições, etc.).
III. Juntei 10 destes símbolos com 10 símbolos indo-europeus, fáceis de detectar em Portugal (e não só). Criei um instrumento de pesquisa. Testei 150 alunos durante 5 anos. Estes jovens sem qualquer aprendizagem cultural (e até com a prevenção contrária, de que figuras geométricas são desprovidas de significado) sem dialogarem entre si, e recusando a hipótese de que "nenhuma" associação teria sentido (podiam tê-lo feito), concentraram as associações em proporções que atingiam 85% de convergência, quando deveriam rondar os 10% se fossem produzidas "ao acaso" - estava demonstrada a teoria freudiana do inconsciente libidinal e liquidada a teoria do relativismo cultural, suporte da antropologia euro-americana, desde Boas.
IV. Publiquei os resultados em português, francês e inglês, em Portugal e França, depois de os apresentar em Colóquios de língua inglesa (em Ghent, Bélgica, num congresso PSYART; e no Porto, num congresso ImPACT) sem reacção nem de psicanalistas nem de etnólogos, incapazes de qualquer problematização teórica. Concorri a um Prémio de investigação de uma das melhores revistas americanas de psicanálise; não ganhei, não fui convidado a publicar mas recebi o feedback que estes factos eram "intrigantes".
V. Os detentores de verdades dogmáticas estão cegos, nada descobrem e nada aprendem, rezam ao Racionalismo e repetem 'credos' disciplinares. As resistências irracionais dos Racionalistas Académicos garantem a inexistência de qualquer Ciência integrada do Homem e coleccionam 'disciplinas' descritivas e museológicas, entre si incompatíveis, fechadas nos seus Antolhos míticos
VI. Referentes simbólicos libidinais destes "desenhos (ditos) decorativos": vulva, útero (fecundo / estéril), mamas, pénis, esperma, incesto, acto sexual, sexualidade legítima. linhagem (lá como cá).
VII. Os Tukano também tinham um código simbólico, com as 3 cores básicas (amarelo = masculino; vermelho = feminino; azul = ‘espírito’), recusando os restantes 9 lápis de cor que lhes eram fornecidos. Sobre o simbolismo das cores, cf, também Victor Turner.
VIII. Também utilizei este instrumento de pesquisa com amostras hindus, no Gujarate e em Lisboa. O sistema de variantes mantém-se pertinente.
IX. O que antropólogos designam depreciativamente como “artes decorativas”, atribuídas à 'ignorância' das mulheres (Gell), são, funcionalmente, códigos simbólicos desenvolvidas nos rituais masculinos, com funções mágicas defensivas (contra o adoecimento e a morte) e propiciatórias (da fecundidade), com pleno curso inconsciente (não racionalizado nem racionalizável e por isso sem discurso partilhável) no mundo ocidental e não apenas entre ‘primitivos’.
X. Se quiseres, posso enviar-te as referências bibliográficas do RD (cego para a sua descoberta), de Gell (pela negativa) e minhas (cim base empírica, controlo matemático e desenvolvimento teórico.

Índios e Presidentes


 Façamos o seguinte exercício: imaginemos que somos um índio que, por volta de 1500, se encontra sozinho numa praia de um território que mais tarde se haveria de chamar Brasil. Imaginemos que o nosso índio tenha avistado uma enorme “canoa”, de velas enfunadas e com uma cruz vermelha pintada em cada vela. Imaginemos que, com um esforço adicional, esse índio solitário tenha conseguido avistar, dentro da dita “canoa”, figuras quase tão humanas como ele mesmo. Ninguém mais avistou a dita canoa. Todos os outros membros da tribo estavam na floresta a cuidar dos afazeres; gente com mais bom-senso, e portanto mais interessada em encontrar alimentos ou combater tribos inimigas, do que ficar a passear numa praia, imaginando o que estaria do outro lado da vastidão infindável do oceano. Mas o nosso índio não. Ele sonhava, e queria saber. Quem sabe se a morada dos Deuses não estaria justamente do outro lado desse oceano? Afinal, as figuras que ele avistou eram semelhantes a si mesmo. Pareceu-lhe que tinham cabeça, tronco, braços e pernas como ele. Mas, ao contrário de si mesmo, estavam vestidos dos pés à cabeça, e pareciam manejar artefactos que lhe pareceram tão fantásticos quanto a enorme e exótica canoa que os transportava. Afinal, a hipotética morada dos Deuses seria tão diferente e oposta ao seu mundo, ou pelo contrário, aquilo que existisse do outro lado eram apenas e mais ou menos uma recriação do seu próprio mundo? Seriam as criaturas que vislumbrou os Deuses de que a tribo tanto gostava de falar? Seriam benévolos, ou pelo contrário maléficos? Viriam estes estranhos visitantes falar com a nossa tribo, ou seguiriam o seu caminho, ficando ele apenas como uma estória boa para contar, talvez à volta de uma fogueira onde de cozinhava a próxima refeição?

 

Imaginemos finalmente que o nosso índio acabou por desistir de ver ou entender mais sobre a referida canoa, voltando costas ao mar e embrenhando-se na floresta em busca dos seus. Quando lhes conta a sua estória, recebe em troca um misto de curiosidade e de troça, misturada com algum medo. Uma canoa gigante com homens dentro, podia lá ser?! Nunca ninguém tinha visto tal coisa. O nosso pobre índio terá passado o resto da vida sendo alvo da chacota da tribo. Toda a gente sabia que ele era muito dado ao sonho e à imaginação, e que do outro lado do mar (talvez fosse infinito, mesmo do alto do monte mais alto não se via o fim) não havia nada nem ninguém. Pelo menos assim o afirmavam os velhos sábios e os Xamãs da sua tribo.

 

Do ponto de vista de um nativo brasileiro, o velho mundo que assomava ás suas portas em 1500, trazido pelas naus de Cabral, era isso mesmo: um outro mundo, repleto de novidades e de perigos. Eram humanos como eles, mas transportavam em si doenças mortais. Vieram com a cobiça nos olhos, e não se coibiram de torturar, matar e roubar o que encontravam. O choque tecnológico era abissal; nenhum índio podia combater eficazmente o invasor vindo do mar. As suas armas e a sua tecnologia eram invencíveis. Os novos senhores do mundo, trazidos pelo mar, rapidamente entraram e conquistaram o seu mundo. Nos seus espíritos vinha o desprezo; para eles, o nativo era considerando como sub-humano. A sua cultura, como a sua tecnologia e civilização, eram consideradas inferiores, e havia um novo mundo a conquistar. O resultado desse encontro, e desde a Patagónia ao Alasca, consta dos livros de História moderna: o quase extermínio de toda a população nativa das duas Américas.

 

A Terra já não tem “novos mundos” a descobrir. Nenhum recanto do globo ficou por encontrar, nada escapa aos espiões que povoam os céus desde há cem anos.  Mas esta constatação não transporta em si nenhuma promessa de segurança. Quando deixámos de olhar para o mar aprendemos a olhar para esse oceano infinitamente mais vasto que é o Cosmos. E nos dias que vivemos, a cada dia, novos mundos são revelados a este mesmo velho mundo que, a bem ou a mal, temos vindo a unificar. Verdade seja dita, são mundos infinitamente distantes e a nossas “canoas”, mesmo quando impulsionadas por modernos e potentes foguetes, não nos conseguem levar até eles.  Tirando uns quantos objectos do sistema Solar nenhum planeta extra solar poderá ser um dia visitado, tanto quanto a moderna ciência nos parece impor. As estrelas, com os seus  séquitos de planetas, estão para já vedados à Humanidade. As leis da física e da relatividade e a temível lentidão da velocidade da luz parecem querer impedir-nos de algum dia abandonarmos o nosso lar primordial em direcção ás estrelas. A menos que, e como essa mesma física ás vezes parece apontar, existam caminhos mais curtos entre dois pontos do que uma linha recta. Talvez o tecido do espaço tempo permita mesmo a sua expansão e contracção, permitindo dessa forma percorrer os anos-luz sem com isso violar as leis da física.

 

Faz parte da mitologia moderna: toda a gente fala sobre aquilo que não existe, mas que uma larga maioria da população diz ter visto: objectos que se deslocam no céu, fazendo manobras e atingindo velocidades que nenhuma veículo feito por humanos pode alguma vez atingir. Não estou a falar da ridícula e famosa área 51. Uma instalação militar supostamente secreta algures no estado do Nevada e que só muito recentemente o governo dos E.U.A. assumiu existir. Ver veículos anómalos a voar na zona não é nada de surpreendente, nem faz com que as visitas de supostas entidades biológicas extra-terrestres pareçam ser verdade: foi lá que os aviões de topo dos militares americanos foram desenvolvidos. Desde o célebre U2, passando pelo black bird, aos aviões de tecnologia stealth (invisíveis ao radar), até ás asas voadores, tudo isto foi feito por lá. foi também nesta instalação militar que os norte-Americanos desmontaram peça a peça um caça Soviético. Mas não é disso que se trata. Trata-se antes de tentar entender se, no meio de um ruído infernal e de um oceano de lixo que povoa o ciber-espaço sobra alguma coisa que verdadeiramente mereça a nossa atenção.  

 

Vem isto a propósito de uma entrevista feita à candidata presidencial dos E. U A. Hilary Clinton sobre o fenómeno OVNI (Objecto Voador Não Identificado). Há apenas 10 anos Barack Obama respondia com uma sonora gargalhada a essa mesma questão. Hilary Clinton reage de modo diferente, e, num esforço de demonstração de que se encontra um passo à frente,  informa o entrevistador que já não se designam por OVNIS, mas sim por Fenómenos Aéreos Inexplicados. Muda o quê? A forma de designação, quanto muito! O que surpreende aqui, pelo menos os mais desatentos, é o que está implícito em tal afirmação: o reconhecimento de que se passam na atmosfera terrestres fenómenos inexplicados. Afinal, aquilo que gente comum vem dizendo há décadas, muitas delas ignorantes sobre tudo o que se passa na atmosfera terrestre, como por exemplo os sprites, enormes descargas eléctricas na alta atmosfera.  Mas também gente bem posicionada - onde se contam astronautas ou  altas patentes militares, só para citar alguns -, acaba por merecer de altas figuras da política mundial algum interesse. Desta entrevista feita a Hilary Clinton e dos artigos da Scientific American ou do artigo do New York Times, não é nenhuma afirmação ou confirmação da existência de vida inteligente no universo nem muito menos a sua vista ao nosso planeta.  Mas há algo de novo no ar: gente séria e capaz de encarar de frente a questão, apesar do medo do desconhecido que, à semelhança do nosso índio pré-cabralino, nos leva em manada a oscilar entre o medo e a chacota, e tem também por isso mesmo afastado gente séria da ciência.

 

Do meu ponto de vista é para já simples lidar com esta questão: afirmações incríveis exigem provas incríveis, e essas eu não as vi. O que não significa que elas não existam. Eu posso estar na mesma posição em que se encontravam ou restantes índios no dia em que um único membro da sua tribo viu as primeiras caravelas portuguesas. Pode acontecer que, da mesma forma que a soberba da Igreja impediu as autoridades eclesiásticas da sua época de aceitar as descobertas de Galileu e do seu telescópio, possamos agora estar a cair no mesmo erro: quem detém o poder não gosta de o ver questionado, e os cientistas da actualidade ocupam de alguma forma o lugar de poder que antes pertencia à Igreja. Mas os sinais estão aí.  Aprecio aqui a coragem de entrevistador e entrevistados e a coragem de uma publicação como a Scientific American de abordar este assunto. Aprecio sobretudo a sobriedade com que  Clara Moskowitz, editora sénior desta prestigiada revista aborda esta questão. Parece que já nem todos os cientistas sérios  fogem da matéria, apesar da assumpção da ignorância, e do cepticismo que o saber científico implica. Mantenha-se então a mente aberta, mas não ao ponto de deixar o cérebro cair. Para lá do medo e do perigo, e tal como aconteceu aos nativos americanos, haverá uma verdade. Parafraseando Arthur C. Clark, “ou estamos  sós no Universo, ou estaremos acompanhados. Ambas as hipóteses são assustadoras”. Do medo não nos livramos. Por isso, eu afirmo: eu não quero acreditar, mas quero saber.

sábado, 12 de junho de 2021

Cavar mais fundo na história

OS ÁRABES MUÇULMANOS, E NÃO OS EUROPEUS, COMEÇARAM O TRÁFICO DE ESCRAVOS PRETOS EM GRANDE ESCALA, séculos antes de os europeus chegarem à África, e castravam os escravos. Os muçulmanos calam sobre isso, por solidariedade religiosa.
O antropólogo e economista franco-senegalês Tidiane N’Diaye considera que o tráfico de escravos árabo-muçulmano realizado durante quase mil anos ainda não foi reconhecido em toda a dimensão. Falta virar essa página.
Tidiane N’Diaye publicou “O Genocídio Ocultado” em 2008, mas mais de uma década depois o que acusa de ser um encobrimento de práticas esclavagistas árabo-muçulmanas entre o sétimo e o décimo sexto, quase mil anos, ainda se mantém.
Sem ignorar o tráfico transatlântico que se segue durante quatro séculos, considera que “os árabes arrasaram a África Subsariana durante treze séculos ininterruptos” e que a “maioria dos milhões de homens por eles deportados desapareceu devido ao tratamento desumano e à castração generalizada”.
Para este investigador franco-senegalês, é mais do que tempo de “examinar e debater o genocidário tráfico negreiro árabo-muçulmano como se faz com o tráfico transatlântico”.
A sua introdução ao ensaio “O Genocídio Ocultado” é muito violenta.
Pode dizer-se que a escravatura arábo-muçulmana foi a mais dura?
É preciso reconhecer que as implosões pré-coloniais inauguradas pelos árabes destroem sem dúvida os povos africanos, que não tiveram um intervalo desde sua chegada. Como mostra a história, os árabes-muçulmanos estão na origem da calamidade que foi o tráfico e a escravatura, que praticaram do século VII ao século XX. E do sétimo ao décimo sexto século, durante quase mil anos, eles foram os únicos a praticar este comércio miserável, deportando quase 10 milhões de africanos, antes da entrada na cena dos europeus. A penetração árabe no continente negro iniciou a era das devastações permanentes de aldeias e as terríveis guerras santas realizadas pelos convertidos a fim de obter escravos de vizinhos que eram considerados pagãos. Quando isso não era suficiente, invadiram outros alegados “irmãos muçulmanos” e confiscavam os seus bens. Sob este acordo árabe-muçulmano, os povos africanos foram raptados e mantidos reféns permanentemente.
A recente islamização dos povos africanos excluiu as práticas de escravidão?
O islão só permite a escravização de não-muçulmanos. Mas em relação aos negros, os árabes utilizaram os textos eruditos como os de Al-Dimeshkri: “Nenhuma lei divina lhes foi revelada. Nenhum profeta foi mostrado em sua casa. Também são incapazes de conceber as noções de comando e de proibição, desejo e de abstinência. Têm uma mentalidade próxima da dos animais. A submissão dos povos do Sudão aos seus chefes e reis deve-se unicamente às leis e regulamentos que lhes são impostos da mesma maneira que aos animais. ”
Considera o autor existir um “desprezo dos árabes pelos negros no Darfur”. E mantém-se até à atualidade?
Sim. No inconsciente dos magrebinos, esta história deixou tantos vestígios que, para eles, um “negro” continua sendo um escravo. Eles nem podem conceber que os negros estejam entre eles. Basta ver o que está a acontecer na Mauritânia ou no Mali, onde os tuaregues do norte jamais aceitarão o poder negro. Os descendentes dos carrascos, como os das vítimas, tornaram-se solidários por motivos religiosos. Mas existem mercados de escravos na Líbia! Somente o debate permitirá superar essa situação. Recorde-se que em França, durante o comércio de escravos e a escravatura, havia filósofos do Iluminismo, como o Abade Gregório ou mesmo Montesquieu, que defendiam os negros, enquanto no mundo árabo-muçulmano os intelectuais mais respeitados, como Ibn Khaldun, também eram obscurantistas e afirmavam que os negros eram animais. Nenhum intelectual do Magrebe levantou a voz para defender a causa dos negros. É por esta razão que este genocídio assumiu tal magnitude e continua. No Líbano, na Síria, na Arábia Saudita, os trabalhadores domésticos africanos vivem em condições de escravatura. A divisão racial ainda é real na África.
Quando se fala de genocídio, o holocausto surge logo. Pode-se fazer comparações, apesar da duração temporal, com a do tráfico negreiro árabe?
Desde o início do comércio oriental de escravos que os muçulmanos árabes decidiram castrar os negros para evitar que se reproduzissem. Esses infelizes foram submetidos a terríveis situações para evitar que se integrassem e implantassem uma descendência nesta região do mundo. Sobre esse assunto, os comentários de uma rara brutalidade das ‘Mil e Uma Noites’ testemunham o tratamento terrível que os árabes reservavam aos cativos africanos nas suas sociedades esclavagistas, cruéis e depreciativas particularmente para os negros. A castração total, a dos eunucos, era uma operação extremamente perigosa. Quando realizada em adultos, matou entre 75% e 80% dos que a ela foram sujeitos. A taxa de mortalidade só foi menor nas crianças que eram castradas de forma sistemática. Mas 30% a 40% das crianças não sobreviveram à castração total. Hoje, a grande maioria dos descendentes dos escravos africanos são na verdade mestiços, nascidos de mulheres deportadas para haréns. Apenas 20% são negros. Essa é a diferença com o comércio transatlântico.
Afirma o autor que o tráfico negreiro transatlântico foi menos devastador que o comércio árabo-muçulmano. O que os diferencia?
E ele diz: eu só falo de genocídio para descrever o comércio de escravos transaariano e oriental. O comércio transatlântico, praticado por ocidentais, não pode ser comparado ao genocídio. A vontade de exterminar um povo não foi provada. Porque um escravo, mesmo em condições extremamente más, tinha um valor de mercado para o dono que o desejava produtivo e com longevidade. Para 9 a 11 milhões de deportados durante essa época, existem hoje 70 milhões de descendentes. O comércio árabo-muçulmano de escravos deportou 17 milhões de pessoas que tiveram apenas 1 milhão de descendentes por causa da maciça castração praticada durante quase catorze séculos.
Pode dizer-se que os árabes são os “inventores” da escravatura tal como a definimos hoje?
Na verdade, foi o Império Romano quem mais praticou a escravidão. Estima-se que em determinada altura quase 30% da população do império era escrava. Quanto à África, deve-se notar que, enquanto a propriedade privada não existia, as pessoas funcionariam em cooperativa. Quando a propriedade privada cresceu, eram precisos mais braços para trabalhar. Foi então que os conflitos começaram e cresceram e os vencidos foram então reduzidos à escravidão. Estima-se que, no século XIX, 14 milhões de africanos estavam escravizados. A escravatura interna existia antes e durante o tráfico árabo-muçulmano e transatlântico. Foram os árabes muçulmanos que começaram o tráfico de escravos em grande escala. Como Fernand Braudel apontou, o tráfico de escravos não foi uma invenção diabólica da Europa. São os muçulmanos árabes que estão na origem e o praticaram em grande escala. Se o tráfico atlântico durou de 1660 a 1790, os muçulmanos árabes atacaram os negros do sétimo ao vigésimo século e foram os únicos a praticar o tráfico de escravos.
O autor acusa o mundo árabe-muçulmano de fazer um genocídio meticulosamente preparado. E é uma questão de que não se fala porquê?
Este é realmente um pacto virtual selado entre os descendentes das vítimas e os algozes, que resulta em negação. Este pacto é virtual, mas a conspiração é muito real. Porque neste tipo de “Síndrome de Estocolmo ao estilo africano”, em que tudo se coloca sobre as costas do Ocidente. É como se os descendentes das vítimas tenham decidido nada dizer. Que os estudiosos e outros intelectuais árabes-muçulmanos tentassem fazer desaparecer essa realidade até ser uma mera lembrança dessa infâmia, como se nunca tivesse existido, até pode ser compreendido. No entanto, é difícil perceber a atitude de muitos cientistas – e mesmo de afro-americanos que se convertem cada vez mais ao islão -, pois é uma espécie de auto-censura. E é por isso que decidi publicar este livro, uma tentativa para quebrar o silêncio porque a história e antropologia não estão ao nível de uma crença religiosa ou de uma ideologia, mas de factos provados que não podemos esconder para sempre.
Como vê o papel de Portugal nesse trafico transatlântico?
Os portugueses tinham acidentalmente capturado um nobre mouro Adahu, em 1441. Este último ofereceu-se para comprar sua liberdade em troca de seis escravos negros e isso ocorreu em 1443. Depois disso, Dinis Dias desembarcou no Senegal e trouxe para Lagos quatro cativos, situação que marca o início do tráfico sistemático. Os portugueses foram, assim, os primeiros a importar escravos para o trabalho agrícola. Eles transportavam entre 700 e 800 cativos por ano desde os postos comerciais e fortes na costa africana. O pioneiro neste tráfego foi Gonçalves Lançarote em 1444. Em seguida, foi a vez do navegador Tristão Nunes comprar aos mouros um número significativo de cativos africanos, para aumentar o seu número em São Tomé e Portugal. Em 1552, 10% da população de Lisboa consistia de escravos mouros ou negros. E aqui também há um trabalho de memória a ser feito…
A colonização europeia de África suavizou a anterior crueldade sobre os povos do continente ou manteve-a?
Se essa colonização pudesse ter um rosto, seria aquele que está na origem de dramas inesquecíveis. Depois dos compromissos históricos dos pensadores iluministas com ideias racistas, desde meados do século XIX que também há teorias que se infiltraram nas cabeças de um grande número de intelectuais como a do racismo científico. Se no início das conquistas, os ingleses apresentavam a superioridade científica e técnica da sua civilização sobre a dos povos “atrasados”, em seguida procuraram uma “justificativa racial” para fazer a colonização. Sociólogos e cientistas britânicos decidiram elevar essa manobra ao apresentar os povos negros como sendo “seres vivos, semelhantes aos animais”. E foram inspirados por uma das referências científicas da época, Charles Darwin, que concluiu o seu trabalho da seguinte forma: “O homem subiu da condição de grande macaco para o homem civilizado, passando pelas fases do homem primitivo e do homem selvagem. O melhor grau de evolução foi alcançado pelo homem branco.” E todas essas construções levaram a calamidades como a do apartheid.
* Tidiane N’Diaye, antropólogo e economista franco-senegalês.
“O Genocídio Ocultado – Investigação histórica sobre o tráfico negreiro árabo-muçulmano” (233 páginas). Editora Gradiva. Colecção Trajectos. Lisboa. 2019.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Mar da Palha

Praia do Samouco. 9.30 da manhã. Dezenas de mariscadores, muitos deles ucranianos, avançam pelo Tejo em maré vaza. A amêijoa japonica, contaminada ou não por biotoxinas, contaminada ou não pelos temíveis metais pesados é uma tentação irresistível para quem tem que garantir sustento. O número de mariscadores é tal que já há uma roulote de comes e bebes. O lixo abandonado é mais do que muito. Um homem de etnia cigana com uma menina dos seus 6 anos insiste para que a pobre criança beba uma lata de coca cola pela manhã. Para me reduzir a angústia comemoro em silêncio a recusa da criança em ingerir tal veneno, preferindo a sandes que tinha na mão sujita.
Aumentar os impostos sobre bebidas açucaradas, ou simplesmente proibir tais venenos? Para quando fazer com o açúcar e os ácidos o mesmo que se fez com as gorduras hidrogenadas?! Nos rostos de todos o medo ou a desconfiança pela minha pessoa por não saberem quem sou. Talvez um inspector da ASAE?! Vou dando os bons dias a um ou outro para quebrar o medo. Relembro um trabalho etnográfico feito por uma brasileira na Mouraria: sou estudante, estudo o Tejo. Se alguém um dia me perguntar, está será a resposta.