sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Et vive la France!


Uma semana ausente. Em França, no "Pays de la Loire". Vou a trabalho, pouco resta para o lazer. Mas a viagem ao longo do rio compensa.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Velharias e antiguidades


Raramente consigo gostar de um objecto antigo. Raramente desenvolvo afecto por objectos. Eles apenas existem para nos servir.
Sempre que ia à feira-da-ladra, ou se entrava num antiquário, acontecia a mesma sensação pouco agradável, da carga que os objectos com alguma antiguidade me causavam. Não aprecio particularmente a presença de objectos antigos próximos de mim. Sei que pertenceram a alguém, que essa pessoa talvez tenha tido afecto ou qualquer sentimento de pertença com o objecto, e se eu me apropriasse do objecto, estaria a "roubar" algo a alguém, mesmo que esse "alguém" seja já apenas pó, memória, ou nem isso. Sei ainda que (felizmente) há pessoas que gostam verdadeiramente de antiguidades, da história que cada objecto carrega. Ainda bem que existem. Nada contra, tudo a favor. Surpreendo-me comigo próprio em contradição! Adoro a antiguidade dos objectos e das coisas, desde que muito antigas. Recordo as visitas ao Museu Britânico. Meu Deus, o primeiro confronto com os frisos do Partenon, e as lágrimas que não consegui conter. Os bustos de Péricles, de Adriano, de Antínoo, a Pedra Roseta, a estatuária monumental da Babilónia... poderia passar anos dentro do Museu Britânico sem me cansar! Paradoxo? Talvez. Qual a fronteira então que me faz distinguir os objectos não desejados, dos desejados, admirados, que não me causam desconforto? O tempo. Porque se na minha cabeça for imenso, então consigo "filtar" o desejo, o sofrimento, a história que fazem a "alma próxima" do objecto. Passa a ser um tempo distante, filtrado, onde o rio do esquecimento já foi passado, em que me posso dar ao "luxo" de ver apenas o lado mais belo que o objecto conta. É quando eu já não posso imaginar uma pessoa concreta, mas apenas pessoas abstractas, que eu posso aproximar-me desse objecto sem a "sensação do ladrão". É por isso que me deleito com a ideia que um dia toquei (sacrilégio, hoje já não o poderia fazer, mesmo que quisesse, uma redoma de vidro protege a peça) a Pedra Roseta".

O meu desprendimento dos objectos tem, como em todas as regras, a excepção: o meu telescópio, máquina fantástica em que investi tanto do meu tempo de jovem na sua construção, que me permitiu e permite magníficos momentos de evasão, de comunhão com o Cosmos! A este objecto, confesso, tenho algum afecto. Se o perdesse sofreria com isso.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Pássaros


10 anos. Parece que foi ontem, mas já lá vão 10 anos! Decidiu a família "dar um pulo" até ao outro lado do Atlântico, mais concretamente, até ao Canadá. Mais de um mês a dormir (mal) numa cama minúscula. Mas valeu a pena - terá mesmo valido a pena, em todos os sentidos? Relembro com prazer o reencontro da família, as cataratas do Niagara, a praia do lago Erie, meu Deus, aquilo só é lago com muito boa vontade. Lembro a praia de areia branca, ondas como num mar, e um lago que se denuncia apenas quando mergulho e percebo (finalmente) que a água é doce!!! O gigantismo é tal que não se vê o outro lado! Soube muito tempo depois que sentiste isso como abandono, que as duas vezes que te telefonei não foram suficientes. E sei também que nunca me permitiste a redenção desse pecado. Enfim, ninguém é perfeito, e mesmo quando damos o melhor de nós mesmos, isso nunca será suficiente. Uma nuvem tolda o meu pensamento. Quão leve era então a nossa ligação. Leve como o peso de um passarinho a que chamei Ambrósio, e que me visitou frequentemente durante aqueles dias de Agosto em Toronto. Um dia apareceu à janela da cozinha, esvoaçando. Aproximei-me dele cuidadosamente. Não demonstrou grande medo, embora no primeiro dia mantivesse uma distância de segurança.
Peguei num pedaço de bolo, atirei-lhe umas migalhas. Não fugiu. Comeu as migalhas que caíam. Pouco depois perdeu o medo de mim, e aquele pequeno ser selvagem passou a vir comer na minha mão! Todos os dias, invariavelmente, lá estava o Ambrósio (para deleite meu e da família)! Se eu estava desatento, esvoaçava e dava pequenas bicadas no vidro, chamava por mim, e só se ia embora quando já se sentisse saciado. Não me esqueci deste acontecimento trivial. Sei que ficou gravado para sempre na minha memória. Sei que um dia irei ter tempo para pôr um comedouro na varanda da minha casa, que irei habituar alguns "habitantes emplumados" das redondezas à minha presença, e que um dia a passarada brava e assustadiça de Portugal poderá vir também comer na minha mão. Esta é sem dúvida uma das tarefas mais importantes para o futuro. E sei também que me irei lembrar de ti nesses momentos, enquanto a leveza dessas pequenas vidas pesar sobre as minhas mãos. Estarei então como sempre sozinho, tal como tenho estado nestes últimos 10 anos.



Asas fechadas
São cansaço ou queda
Pedra lançada
Ou vôo que repousa
Ai, meu sorriso, a mim entrega
E meu olhar não ousa...

Asas fechadas
Dizem dois sentidos
Ambos iguais
E versos verticais
No teu sorriso só pressinto
Um sofrimento mais...

Asas fechadas
Desce quem subiu
Buscar a terra
É ter fé lá no céu
Nos sorrisos indecisos
Outro sonho nasceu...

Asas fechadas
Sonho ou desespero
Ponto final
Ou ascensão sem par
Nestes sorrisos espero
Por não saber chorar...

É prudente o silêncio
De quem só sabe sonhar...

Alain Oulman



quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Mandala


Créditos: http://higherbalance.files.wordpress.com/2008/08/mandala.jpg
http://www.dharmanet.com.br/mandala/
http://www.dharmanet.com.br/buddha/

Partir pedra

Consta que um dia, ao passear pelas ruas de Atenas, Sócrates se deparou com um individuo sentado no chão, com um escopo e um martelo, a trabalhar. Quando lhe perguntou o que estava ele a fazer, a resposta foi : é óbvio, estou a partir pedras. - Ah, a partir pedras, retorquiu Sócrates. Que interessante.
Andando mais um pouco o nosso filósofo deparou-se com um segundo homem que fazia exactamente a mesma coisa. E de novo a pergunta, o que estava ele a fazer. A resposta foi : é óbvio, estou a construir blocos de pedra. -Ah, a construir blocos, retorquiu Sócrates. Que interessante. Continua o filósofo com o seu passeio, e mais à frente depara-se com um 3º homem que fazia o mesmo que os outros dois. E de novo a mesma pergunta : o que estava ele a fazer. A resposta foi : estou a construir um templo!
Vale a pena meditar um pouco sobre esta parábola. Os três homens faziam exactamente a mesma coisa. Mas cada um deles tinha imposto uma visão (e uma limitação) ao que fazia.

E eu, que ando eu a fazer nesta vida ? Parto pedras, fabrico blocos, ou ando a construir um templo?

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Delírio

Bom, as aulas continuam, e o delírio também. Creio que me vou ficar pela bibliografia recomendada, até porque se torna incomportável a conciliação do emprego com as aulas. É difícil construir uma linha orientadora de raciocínio. Estamos no pós-científico. Muito bem, sim senhor. E depois? Parece que anda-mos em círculos, e por isso mesmo sem sair do mesmo sítio. Tudo é delírio e sexo - Meu Deus, como o sr. professor gosta de falar de sexo! No meu caso, e no que respeita à matéria, prefiro fazer a falar.... As representações são todas simbólicas, e Freud é uma espécie de totem! Afirmação complicada, depois de alguns semestres em que os colegas do distinto professor foram declarando Freud "persona non grata" para a Antropologia. Já tive a oportunidade de lhe explicar que nós alunos mais parecemos casquinhas de nozes em mar alteroso. Tenho para mim que o melhor é mesmo tentar perceber o que é que cada ilustre professor pretende ensinar, e tentar talvez papaguear as ideias fundamentais da cadeira no exame. Se tem que ficar assim, assim seja. Mas eu não "engulo" essa com facilidade. Não discuto que o professor tenha lido muitos e bons livros. Certamente que leu. Mas bons livros é o que não falta, felizmente. Posso até ter que ler os autores recomendados para a cadeira, mas esses autores não invalidam outros autores que eu já li, que foram estruturantes na minha construção enquanto indivíduo, e que eu não tenho a mais pequena intenção de abandonar, pelo menos até que apareça alguém que os possa refutar de forma segura e inequívoca. Cito Hubert Reeves e o seu "Um pouco mais de Azul"na aula. O professor responde que o exemplo é um belo exercício de poesia, mas que a ciência nada tem a ver com o assunto, e que mal iríamos nós com uma biblioteca feita com livros da GRADIVA! Depois desta afirmação, não me parece que haja muito mais a dizer. Não sei se o ilustre professor sabe, mas a GRADIVA foi a primeira editora a fazer um esforço real e reconhecido de divulgação científica em Portugal. Pode o ilustre professor depreciar este trabalho. Eu nunca o farei. Reconheço humildemente que tenho muitos autores de Antropologia para ler. Vou procurar fazêlo. Tenham os distintos Antropólogos a humildade de "pôr o nariz" noutros livros, ditos das ciências exactas, e aprender que existem nos seres Humanos raciocínios lógicos, muito para além do delírio, do sexo, do complexo de Édipo (ou de Electra), da vontade de matar o paizinho, do sado-masoquismo e afins. Tenho para mim (mas se calhar é mesmo coisa só minha), que não foi com delírios que se construíram pontes, aviões, computadores, sondas espaciais, tomografias, TEPS e outros "brinquedos" que nos tornam a vida mais fácil, e - basta um pouco de vontade, nos libertam em grande medida de uma existência miserável que foi o apanágio da Humanidade durante quase toda a sua existência.

Gosto muito dos novos autores que o curso me "obriga" a ler, mas gosto igualmente da "Poesia sóbria" de autores como Carl Sagan, Hubert Reeves, Richard Feynman, e tantos outros que nos conseguem transportar para um universo que contem o caos mas também a ordem, que permite construir,mais do que destruir. Pudesse eu recomendar alguns pequenos livros de construção do Homem, simples, mas por isso mesmo acessíveis e didácticos. Aconselharia talvez o incontornável "Cosmos" do Carl Sagan. Aconselharia igualmente o "Um mundo Infestado de Demónios," ou o "Um ponto azul claro" do mesmo autor. Aconselharia ainda o livro "A hora do deslumbramento", do Reeves, e tantos outros. E mesmo que não seja a ciência pura e dura, mais profunda, daquela que se faz em universidades e laboratórios, talvez fizessem pela Humanidade tão bem quanto os outros. E tenho para mim também que a fronteira entre as ciências ditas "exactas" e as "ciências Humanas" é apenas uma construção (quem sabe Simbólica?), destituída de qualquer sentido. E não arredo pé da ideia de que o Humano é construído sobre o Físico, (como tudo o resto) e que por isso mesmo tentar compreender o Humano sem compreender o Físico não é ciência, pelo menos tal como eu a entendo. Esse seria para mim o maior dos delírios.

É um curso deveras interessante, mas, do meu ponto de vista, tem demasiada cultura e muito pouco de biologia. Denoto o "saco de gatos" entre professores de Antropologia cultural e Antropologia Biológica. Eu só pretendia fazer parte do "saco" da Antropologia. Mas se tiver que escolher, então a escolha já está feita. Para quem quiser comparar a construção do curso, basta comparar com o curso de Coimbra.


Escrevi, está escrito.
Disse. Está dito.

O teu olhar


Não, não vou - como sempre, aliás - escrever o teu nome. Não é necessário. Saberás, ao ler esta mensagem, que ela se destina a ti. Conhecemo-nos há apenas um ano, mas paira em mim aquela sensação estranha de que te conheço desde a eternidade. Acreditasse eu na reencarnação e diria talvez que já nos cruzámos noutras vidas. Mas como a minha busca do real prefere outra via, fico-me apenas pela estranheza. Os nossos olhos procuram-se porque (acho eu) sabemos que com eles comunicamos sem necessidade de palavras. Que dizia a Marguerite Yourcenar ? - às vezes as palavras traem os pensamentos! Os nossos olhos não mentem. Temos vários anos de idade de diferença. Há alguns meses atrás cometi a indelicadeza de te dizer que podias ter a minha idade. Não te zangues. É que é impossível olhar para ti, ou falar contigo, e não esquecer os teus 26 anos. A calma, ponderação e profundidade com que falas não se "encaixam" nessa tua juventude. Por isso mesmo parecemos almas velhas em corpos não tão velhos. Neste ano partilhámos já sonhos, vivências, cumplicidades. Definitivamente não me parece que sejam apenas cruzamentos fugazes na voragem dos dias. Não, algo de perene se insinua. E na indiferença dos muitos rostos anónimos com que me cruzo todos os dias, o teu nunca foi anónimo, desde o primeiro instante em que te vi. E quero que saibas que isso é para mim motivo de alegria, orgulho (e porque não dize-lo, de felicidade) quando esses momentos raros de diálogo sem palavras acontecem. Porque é nesses momentos que a solidão se sente acompanhada.

Sei que me entendes, e creio que eu também te entendo. E isso é algo de precioso, nesta cacofonia louca em que vivemos, em que toda a gente tem algo para dizer, mas muito poucos têm algo para ouvir.
Para ti haverá sempre tempo para te ouvir.