domingo, 14 de março de 2021

No dia 13 de Outubro de 1307, sexta-feira, dava-se a perseguição e morte da maioria dos templários em França. Em 1314 morria na fogueira Jaques de Molay, último grão mestre dos templários, também conhecidos como pobres cavaleiros de Cristo. Reza a História que quando começou a arder Molay amaldiçoou Filipe IV de França, o belo, e também o papa Clemente V. Alegadamente donos de uma enorme fortuna e credores do rei de França, despertaram a inveja e a cobiça do monarca e da Igreja, que se aliaram para julgar, condenar e assassinar os membros da ordem templária. A maldição terá surtido efeito, porque menos de um ano transcorrido morriam o papa e o rei. Acusados de rituais negros e de pederastia, foram perseguidos e mortos na França e no resto da Europa. Nos dias da perseguição saíram de Paris 3 navios da ordem, alegadamente carregados com o tesouro dos templários. Deles se perdeu o rasto, e à volta deles se criaram mitos. Um deles, até plausível, diz que se refugiaram em Portugal, país cuja origem está intimamente ligada aos templários, que ajudaram na reconquista e na consolidação do reino. Mais tarde o papa mandava extinguir a ordem também em Portugal. D. Dinis, homem inteligente e culto tratou de fingir acatar a ordem superior da Igreja. Decretou o fim dos templários, mas a única coisa que fez foi mudar-lhes o nome. Em Portugal passaram a chamar-se Ordem de Cristo. A cruz templária foi adaptada e seguiu mais tarde no velame das caravelas e das naus que unificaram o mundo. Reza a lenda que algures pela Moita Longa se encontra enterrado o imenso tesouro dos templários tirado á pressa de Paris numa sexta-feira 13. Para nós ficou o sonho, a grandeza de uma ordem militar e religiosa, o conhecimento e a coragem para construir caravelas e para nos lançarmos por mares "nunca de outro lenho arados". Dizem alguns, este é o motivo pelo qual até hoje ecoa o terror de uma sexta-feira 13.
 

As "Jinelas" da Hermínia

Quem visitar o museu do fado, em Lisboa, pode escutar um fado da grande Hermínia Silva, fadista castiça e muito portuguesa, onde ela canta as "jinelas,"da cidade, ao invés do termo "correcto" janelas!
Amália foi do mundo, mas a Hermínia foi só nossa.
Mulher simples, alfacinha, tinha tanto medo dos aviões que por causa disso nunca se internacionalizou.
O seu português também era o do povo, simples, sem o lustro da palavra escrita, mas com a alegria pura da palavra dita e cantada, nesse grito da alma que canta a solidão e a dor do universo, que é o fado.
E no dito fado o que lá está são mesmo as "jinelas".
Qualquer português conhece o chavão que diz que "só se fala bem português entre Coimbra e Lisboa", afirmação pejorativa que coloca na categoria de selvagens ou incivilizados todos os outros portugueses!
Mas de onde vem esta afirmação hoje bizarra?
Algumas coisas podem escapar ao comum cidadão: uma, é que as fronteiras entre Portugal e Espanha só foram definitivamente determinadas no século XIX! Até lá os marcos não existiam. Resta o pedaço indefinido de Olivença, desavença até hoje por resolver com os castelhanos.
O outro facto curioso é que o português que hoje falamos também só foi unificado no século XIX, por volta de 1860, e esse trabalho foi feito pelas academias de Coimbra e de Lisboa.
Foram os ilustres da nação quem finalmente determinou que a ortografia oficial - e uma ortografia é sempre um trabalho imperfeito e necessariamente inacabado de aproximar a língua falada da sua representação sob a forma de signos - era a que temos hoje, e que o termo certo é "janelas" e não "jinelas'.
Foi assim que o velho idioma português se consolidou por cá, e basta ler os clássicos portugueses da segunda metade do século XIX para perceber o quão rico era o português de então, e o quanto temos vindo a perder desde aí, por via da globalização e da imposição de estrangeirismos, sobretudo do inglês.
Camilo, Eça, ou já entrando no século XX, Aquilino, Soeiro... Deixaram um léxico riquíssimo que temos vindo a perder.
Urge-me reler muitos desses autores. Peguei há pouco no Romance da Raposa" do Aquilino, e encontrei uma ou outra palavra que tive que repescar ou relembrar qual o seu sentido.
Curiosamente o Brasil unificou o seu português mais ou menos na mesma altura.
Mas fez esse trabalho per se, sem obviamente consultar o velho colonizador, e tendo em conta o gigantismo da nação brasileira, e a influência dos idiomas nativos, como o tupi-guarani, ou a influência das línguas e culturas africanas, europeias, ou mesmo sírio-libaneses, japoneses, e todas as influências da multiplicidade étnica do Brasil.
Esse é o motivo pelo qual o português de Portugal difere de forma acentuada ente os dois lados do Atlântico, e também explica porque é que as novas nações africanas nascidas só no pós 25 de Abril de 74 mantém um português mais próximo do português europeu.
Entretanto a partir da segunda metade do século XX, com a explosão das telecomunicações, começando pela rádio, exponenciadas pela televisão, e agora pela internet voltaram a juntar as várias comunidades de falantes do português, sem perder de vista que o português possui um "esqueleto" comum a toda a lusofonia, mas que cada país coloca sobre ele "a carne", o "sangue", os "nervos" que lhe conferem as diferentes formas de falar, sentir, pensar, amar e talvez até odiar.
Mas o esqueleto está cá, é sólido o suficiente para que a família lusófona se entenda, que descubra a riqueza, a diversidade, o brilho daquela que o poeta apelidou de "última flor do Lácio".
Não gosto, nem quero uma unificação do português. Não é necessário e não trará enriquecimento! Pelo contrário, traz pobreza.
Importa mais ler os clássicos, de Portugal, do Brasil, de Angola, de Moçambique, da Guiné, de Cabo Verde, de cada canto onde o velho colonizador plantou um idioma, além de um império que foi esclavagista e colonialista!
Promover entendimentos, sim! Padronizar, homogeneizar, leofilizar a lusofonia, não!
Viva a riqueza, a diversidade, a diferença que nos define e nos une.

 

As Mãos que Ajudam


 

Eva, mãe primordial ou apenas avó, pouco importa para o caso desta estória. Tinha por profissão ser lavadeira. Numa era onde as máquinas eram uma miragem, haviam apenas ecos onde se escutava de vez em quando que num qualquer país remoto já existiam essas máquinas fantásticas onde a roupa entrava suja e saia lavada! Aventava-se até que algumas senhoras das casas ricas de Lisboa já tinham tais engenhos. O único engenho ali na aldeia era o velho sarilho de madeira que separava o trigo da palha na eira, por alturas do fim do Verão. Podia lá ser?! E se fosse, o que podia isso significar para si ou para as filhas sopeiras, elas mesmas empregadas nessas casas de gente rica em Lisboa? E se um dia essas máquinas chegassem á aldeia, o que seria da vida de quem só tinha para vender a força dos braços para lavar roupa, sua e alheia, lá para os lados do rio da Lameira? Não, isso não havia de ser coisa boa! Tanques comunitários sim. Aí estaria resguardada do sol e da chuva, e no Inverno sempre teria onde aquecer alguma água, quebrando dessa forma o gelo que enrregelava as mãos na água gélida do Inverno. Além do mais, os tanques eram elevados, a posição para lavar seria muito mais confortável, em vez da pedra áspera junto á Ribeira onde perdia conta dos dias sempre iguais, de espinha curvada, olhando as águas correntes, sonhando que tal como elas, que levavam consigo o sabão e a sujidade das roupas, a corrente da vida levasse para longe as tristezas, as agruras e as incertezas dos pobres que tinham as bocas dos filhos para alimentar. Mas ali os pobres estavam condenados a dirigir o olhar para baixo: as mulheres miravam as águas da ribeira, os homens o chão da terra que cavavam. Mas costas direitas e olhar em frente eram luxos quem nem os ricos, nem o regime, nem a fome bem real em épocas de penúria permitiam alguma vez. Até a guerra civil de Espanha, que tanto podia ser ali ao lado, como longe tal qual a lua, lhes trazia a fome já que os parcos recursos do país serviam para matar a fome no outro lado da fronteira, deixando os de cá á mingua de pão.


Os tanques sim faziam sonhar: debaixo de telha, ela e as outras lavadeiras podiam enganar a dor, o frio e o cansaço enquanto iam conversando entre si. Sim, os tanques seriam bem melhores do que essas máquinas infernais que roubariam o pão das bocas, suas e dos filhos. Os gémeos morreram cedo, logo depois de nascer, mas ainda assim a prole era grande, apesar do marido ter saúde frágil e de ter escapado por pouco à morte em mais do que uma ocasião. Homem terno e meigo, entretinha os netos fazendo ratos com o lenço de trazer no bolso, ou figuras geométricas fantásticas com uma guita posta entre os dedos. O berço, a mesa, ou o banco... iam ganhando forma enquanto os dedos iam moldando as formas pretendidas, fazendo a criançada feliz, nessas noites em que a morte do porco, seu ou de algum vizinho a quem vendia os préstimos de matador de porcos a troco de carne, prometiam comida farta para a grande família.
Era essa roupa que depois de lavada seguia de novo para Peniche, no lombo de um ou mais burros, umas vezes à arreata por homens, outras vezes pelas próprias lavadeiras.
E para sua surpresa, do nada surgiram duas mãos que se lançaram aos cestos de vime à cunha de roupa, segurando e equilibrando a preciosa carga. Sem ter tempo para pensar ou sequer ficar surpreendida, lançou as suas próprias mãos ao cesto que soçobrava, com a intenção de ajudar as preciosas e inesperadas mãos. E aconteceu tocar-lhes, tendo aí apanhado o maior susto da sua vida: porque aquelas mãos eram tão frias e geladas como a água da ribeira no mês frio de Janeiro!
Além do mais não viu a quem pertenciam aquelas mãos! A carga equilibrou-se, o burrito não vacilou e continuou a caminhar. Mas a Eva escutou uma voz que lhe disse: "nunca mais evoques a ajuda de quem já morreu!".

Mas a Eva era lavadeira. O hospital de Peniche, a poucos quilómetros garantia um fluxo constante de roupas para lavar, permitindo um magro ganha-pão arrancado à lage do rio da Lameira.

Foi num desses transportes de roupa lavada no lombo de um burrito que um dia teve a mais assustadora das experiências: depois de um dia de lavar, estender, secar e dobrar roupa, teve ela mesma que à noite ir ainda entregar as trouxas ao hospital. Albardou o burro, cestos de vime em ambos os lados do lombo do animal, e a carga da roupa lavada distribuída em peso igual para cada lado, equilibrando a carga que ainda teria que entregar nessa noite.

Aconteceu que, ou porque a carga ficou mal distribuída, ou porque a cilha da albarda ficou mal apertada, ou mesmo porque os buracos da estrada e os solavancos eram muitos, a carga começou a tombar. Ela ali sozinha no escuro, cansada de um dia na ribeira, com uma encomenda que tinha que fazer chegar ao destino, e agora via-se no risco de ver tudo cair por terra.

O desespero tomou-lhe conta do espírito, e em voz alta evocou um pedido: não haveria uma alma, mesmo que fosse do outro mundo, que a pudesse ajudar nesta aflição?

Assim aprendiam os vivos que, a despeito de todas as inúmeras dificuldades da vida, os mortos tinham a capacidade de ajudar os vivos, mas não a vontade. Nem gostavam de ser evocados.

No fim todos se encontrarão do outro lado, talvez com permissão para desculpas e entendimentos. Porque do lado de cá o tempo quase sempre parece demasiado curto para dizer e fazer tudo o que é necessário. Porque, a avaliar pelo recado recebido, as tarefas dos mortos devem ser diferentes das dos vivos. E poderia ser de outra forma?

________________________________________________________________

Em memória da avó Eva e do avô Luzia, que pouco conheci, por ter sido neto tardio. Pouco mais posso fazer do que tecer uma estória possível com os poucos fios que chegaram até mim.

Quim, esta eu fico a dever-te.

O Voo do Arado


Quem visitar em Lisboa o magnífico museu nacional de etnologia (sou suspeito, afinal é o meu museu), encontra aquela que é a maior colecção de arados de Portugal.
Perante nós desfila um conjunto de arados, recolhidos de norte a sul. Um objecto que por 5000 anos nos serviu muito bem e que marcou um tempo longo, em que pouco ou nada evoluiu.
Um engenho de madeira, eventualmente com acrescento do ferro, e que, puxado por pessoas ou animais, servia para sulcar a terra e maximizar as sementeiras, reduzindo o tempo e a energia dispendidas.
Cinco mil anos, um tempo onde a urgência de mudança não existia. Um tempo em que geração após geração pouco havia que aprender de novo, num mundo predominantemente rural, onde a organização social obedecia a padrões estáveis, onde a produção e a reprodução obedeciam a regras aparentemente imutáveis.
Durante este período que vara a humanidade desde o neolítico até ao século XX, o arado voou sobre a terra, marcado o ritmo da vida e das estações do ano, da sementeira até à colheita.
O século XX trouxe a modernidade: em menos de 100 anos o velho arado, que tão bem nos serviu, desapareceu, apropriado por máquinas modernas. O mundo rural que conheceu milhões de gerações desapareceu num piscar de olhos!
Hoje vivemos um mundo urbano, com velocidade estonteante e aceleração constante.
Tivemos todos que aprender a ler e escrever.
Os computadores, a internet e o mundo virtual substituíram esse tempo longo e estável, por uma modernidade líquida, onde somos obrigados a evoluir e adaptarmo-nos num ritmo constante e esgotante.
A morte do arado marcou também a morte desse tempo longo, onde a necessidade de aprendizagem era pequena e constante, e no lugar dela nasceu a contemporaneidade onde somos obrigados a aprender a falar uns com os outros intermediados por máquinas, por inteligência artificial, num mundo onde o silício parece querer tirar o lugar ao carbono.
A contemporaneidade não é apenas líquida: é frágil, alucinada, esgotante, correndo para um lugar que não sabemos qual será. Somos uma espécie em evolução rápida e acelerada, impreparada para a pressão em que existimos.
Um tempo de compressão da história, às vezes demasiado desconfortável, a convidar ao olhar de um tempo passado em que a vida e a memória agora se aparentam mais doces e apetecíveis. Mas essa é apenas uma ratoeira criada por um presente furioso e alucinado.
O passado não é refúgio porque ele já não existe. O olhar só pode ser direccionado num sentido: o futuro. Porque, como alguém escreveu nas paredes de uma faculdade em Lisboa, "o futuro é para sempre".
O arado voou. O tempo longo e lento que ele marcou já não existe.
Mas o futuro abre-se a cada instante, e a nós compete escolher os novos voos que queremos.

 

Da natureza ou da cultura?

 Aí está ele: Apolo, divindade do panteão Helénico.

Atente-se ao detalhe que toda a gente conhece, mas que poucos se questionarão: para que servem as mamas dos homens exactamente?! Se eles não parem nem amamentam porque raio todos nascem com mamilos?
Se está errado, vamos lá corrigir o erro: retirar órgãos inúteis do Ser humano, certo? Errado!
Isto a propósito das publicações homofóbicas do mais baixo e vulgar que circulam no ciber-espaço e nas redes sociais.
Como diz o cartaz da burra de saias, se "se tem pilinha é menino, se tem pipi é menina". Obviamente que a burra nem sonha que na fase embrionária todos os humanos são femininos (ah, e com guelras). engraçado, não? Procurem fotos de um embrião humano, de um réptil e de uma ave e depois tentem adivinhar qual é o humano. São iguais!
Voltando aos pipis e ás pilinhas, percebe-se que os básicos só entendem a sexualidade humana ao nível da genitália. Nem lhes passa pela cabeça que o principal órgão sexual humano é o cérebro, não a "ferramenta". Ora, é na fase embrionária, logo nas primeiras semanas, que o cérebro humano será formatado para ser masculino ou feminino.
Mas a relação dos genes com o meio é complexa e frágil, e no que toca à diferenciação de sexos cria muitas cambiantes. Os estudos já vão dando pistas concretas sobre a orientação sexual dos humanos. Um facto que já se sabe é que um embrião humano se comporta no útero materno como um parasita.
Sim, soa mal, a cultura não gosta de assumir isso. Mas a biologia não: o feto desenvolve-se à custa dos nutrientes que rouba da mãe, o que define uma relação parasitária. Em termos estritamente biológicos é isto que se passa. Acontece que o corpo da mãe reage contra o bebé desenvolvendo anticorpos contra ele. Isso mesmo.
também sabem os biólogos, quantos mais filhos a mulher tiver, mais anticorpos irá produzir. Isso leva à feminilização do cérebro, e a estatística demonstra que a propensão para que os últimos filhos nasçam gays é muito maior. Não é determinista, mas é estatisticamente verificável. As primeiras 12 semanas são determinantes. O equilíbrio hormonal da mulher é vital na formatação do cérebro. Os genitais vêm depois. Em casos extremos um cérebro pode ser transexual: aquele cérebro nasce no corpo errado e a pessoa sabe isso desde sempre.
Quando se trata de um cérebro feminino num corpo masculino o desespero leva muitas vezes à auto-castração, ás vezes a frio. aquela mulher sabe que aquele pénis está ali a mais.
Transexualidade não é classificada como homossexualidade. São pessoas que nascem com a genitália não coincidente com o sexo real. O outro lado é o dos transexuais masculinos. Cérebros masculinos que sabem faltar um pénis naquele corpo. Não são questões menores nem brincadeiras: são pessoas reais e concretas que sofrem com a pressão cultural e são inúmeros os casos de auto-mutilação e de suicídio. Por conseguinte a responsabilidade individual de cada um na orientação sexual é igual à da escolha da cor dos olhos ou da altura: zero. Absolutamente nenhuma.
Entretanto a ciência avança e aprofunda o conhecimento. durante muitas décadas pensou-se que o código genético, o "livro de instruções" que contem tudo o que é necessário para fazer um novo ser poderia ser um guião fixo e determinista. Na verdade as descoberta mais recentes falam de mecanismos mais subtis, introduzindo o conceito da epigenética: trata-se de marcadores genéticos que, em função do meio, de stress, mudança, carência ou abundância reagem, transmitindo ao genoma instruções acerca de um ou mais genes como resposta à pressão ambiental. Nesse sentido a homossexualidade pode ser encarada como mais um recurso para a natureza se auto-regular: um gay ou uma lésbica podem parecer inúteis para a reprodução social, mas na verdade essas variantes da sexualidade servem geralmente para ajudar a criar a prole de alguém com quem partilham genes. O que se sabe com toda a segurança é que orientação sexual nunca é escolha, e que gays, lésbicas ou transgenero são por norma pessoas pacíficas e cooperantes.
Em termos biológicos é assim, em termos culturais existe a pressão para comportamentos estereotipados. A burra de saias brasileira diz que "menino veste azul, menina cor-de-rosa".
Todos os comportamentos de género nos humanos são estereotipados e formatados pela cultura do grupo em que se insere. No que se refere à orientação sexual a ciência observa comportamentos homossexuais em diversos animais: de aves a golfinhos, passando por ovelhas e leões, até aos grandes símios, como os chimpanzés e bonobos, são comportamentos observados e estudados há muito tempo.
Em termos científicos a RDA fez nos anos 60 uma experiência perfeitamente científica, ainda que eticamente execrável: a experiência pavorosa conta-se assim: o país queria ganhar muitas medalhas olímpicas femininas. Tratou de procurar mulheres e homens robustos (eugenia) e fê-los reproduzirem-se entre si. Só vingavam as meninas. Durante aquelas gravidezes injectaram testosterona naquelas mulheres. O resultado do foi claro: quando aquelas meninas se tornaram jovens adultas foram treinadas para os jogos olímpicos. O resultado da experiência foi este: elas ganharam muitas medalhas olímpicas. O outro facto importante que resultou desta experiência é que são todas lésbicas!
Já sabemos o que a testosterona faz às meninas se em excesso durante a gravidez. Ou seja, nesta altura temos a receita perfeita para criar lésbicas e transexuais femininas! é científico, não é nada ético.
Sabemos que não há um gene gay: não é determinista, é fruto de uma relação entre genes e meio. Longe do modelo simplista dos simplórios, a sexualidade dos serem superiores e concretamente dos humanos é diversa.
Dentro da homossexualidade masculina observa-se, além da transexualidade, homossexualidade de elevado grau feminino, moderado grau e gays hiper-masculinos. Há muitas variantes e cambiantes, e depois há a pressão cultural, sempre disponível para infernizar a vida alheia. É engraçado vestir a pele do machão empertigado ou da mulher super-feminina. muitas vezes se sabe como é, públicas virtudes, vícios privados. Faz lembrar aquela aldeia que tinha a "bicha" de estimação para gozarem com ele. No dia em que a "bicha" disse que estava com HIV o machões da aldeia foram todos a correr ao médico fazer análises!
Não, não é assim tão simples: não é porque nasce com pilinha que é automaticamente homem, nem é porque nasce com pipi que é automaticamente mulher. Só burros e ignorantes pensam assim. Muitas vezes fazem-no para esconder as suas fantasias e fragilidades, à conta do sofrimento alheio. A escolha da orientação sexual é da responsabilidade do próprio tanto quanto a escolha da cor dos olhos: zero. Nada. Absolutamente nada!
Antes de virem despejar ignorância e homofobia nas redes olhem-se bem ao espelho, vejam qual é a cor dos olhos e sintam vergonha, muita vergonha por terem olhos castanhos ou verdes. Se tiverem um pingo de vergonha na cara comprem uns óculos para disfarçar, ou escondam-se em casa. Ou melhor, suicidem-se. Agora ninguém tem obrigação de ver a cor dos olhos de ninguém. Tal como ninguém tem a obrigação de ver duas pessoas do mesmo sexo andarem de mãos dadas na rua, ou dar um beijo em público. Como dizia o outro, "o inferno são os outros".

 

9 de janeiro de 2020 
Conteúdo partilhado com: Público
Público
A experiência é simples, e qualquer um de nós a fez em criança: observar um objecto através de um copo de água e perceber que isso distorce e retira nitidez às imagens. Se a água estiver em movimento a imagem irá ondular.
Esse mesmo fenómeno acontece com a atmosfera terrestre.
Feita de azoto, oxigénio e vestígios de outros gases, ainda de vapor e cristais de água, a atmosfera terrestre vibra e ondula, desviando os raios luminosos, absorvendo determinados comprimentos de onda e retirando nitidez às imagens. Qualquer astrónomo já observou esse fenómeno através de um telescópio e já desesperou por causa da distorção desses imagens dos objectos celestes, cuja nitidez é o objectivo primordial. Como não é possível estabilizar o ar atmosférico, permanentemente em movimento dada a energia solar, o vento, a orografia, ou a concentração de vapor de água, restava ao astrónomo esperar dias de atmosfera límpida e calma para proceder ao seu trabalho.
Na Terra já pouco se podia fazer para mitigar esse limite: espelhos cada vez maiores (na astronomia tamanho importa), telescópios no topo de montanhas, em locais desérticos, longe de poluição atmosférica e luminosa.
O grande avanço na Astronomia feita a partir do solo veio com a informática: os computadores permitiram limpar as imagens, e por fim medir em tempo real a distorção da atmosfera através de raios laser, e deformar a óptica dos espelhos para contrabalançar as distorções atmosféricas. A resolução obtida melhorou substancialmente a a partir dos anos 80 do século XX.
Ainda assim era e ainda é uma mitigação. Nunca conseguimos anular totalmente os efeitos da atmosfera.
O sonho de qualquer astrónomo era outro: poder observar acima da atmosfera, livre de qualquer interferência.
A exploração espacial veio finalmente proporcionar essa capacidade: no início dos anos 90 a NASA finalmente colocou um telescópio óptico no espaço. Chama-se Hubble, em honra de um grande astrónomo americano, e orbita a Terra a 400 Kms de altura. Finalmente íamos conseguir as tão ansiadas imagens, puras, capazes de suportar grandes ampliações sem perder a nitidez.
No entanto o Hubble foi inicialmente um enorme flop e uma decepção que custou biliões de dólares á NASA. Por incúria o seu espelho principal foi construído com um erro de curvatura, algo semelhante à miopia humana. As imagens reflectiam aberração esférica!
A NASA levou meses a assumir um erro absolutamente básico e crasso. Bastaria ter montado a óptica em terra e apontado a uma estrela, e logo a olho nu se teria percebido um erro tão grosseiro. Mas o facto é que o Hubble tem um espelho defeituoso. A NASA viu-se na contingência de ter que fazer uma pequena lente correctora, uns "óculos" para corrigir aquela "miopia". O Hubble dava-nos finalmente as imagens puras de que tanto ansiávamos. Mas nem tudo foi contado: o tal menisco corrector filtra alguma luz, e o Hubble perdeu uma magnitude de grandeza, o que equivale a não conseguir observar milhões de objectos. Entre o lançamento, a missão para corrigir a aberração do espelho principal e as missões de manutenção, a NASA já gastou milhares de milhões de dólares num aparelho que, apesar de magnífico, não deixa de ter um espelho com apenas 2,40 metros de diâmetro: um anão, comparado com os gigantescos espelhos em terra, com 8, 16 ou 30 metros de diâmetro! Não é nada consensual para a comunidade de astrónomos a importância deste aparelho. Muitos alegam que com o dinheiro gasto nele se teria feito muita e melhor Astronomia.
O Hubble vale pelo triunfo técnico, pela capacidade de vencer desafios, pela experiência para colocar e operar engenhos de grande complexidade no espaço. O seu sucessor, o James Webb, está prestes a ser lançado no próximo ano, depois de décadas de produção. É mais um péssimo exemplo de como não fazer um telescópio. Uma estória interminável com 20 anos!
Mas o Hubble ainda lá está, e produziu apesar de tudo muita e boa Astronomia. Em 1995 tirou uma fotografia iconográfica, símbolo do triunfo humano: chama-se "os pilares da criação". Imensas colunas de gás e poeiras, maternidades de estrelas que estão a nascer neste momento. Locais futuros para outras Terras, outros mundos, outros pontos azuis pálidos, mundos de água e de terra, temperaturas amenas, vida, luta, impérios e senhores, miséria e grandeza, num sopro futuro daquilo que hoje somos.
Fiquemos então com a poesia dos "pilares da criação"! Magnífico Cosmos. Estranha e assustadora criatura humana, criação e consciência desse Cosmos aqui no pequeno ponto azul claro, perdido algures num braço da espiral da via láctea, orbitando uma pequena mas segura estrela.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Gaius Julius Lauros


De regresso às origens.
Esta é a velha estrada real, tal como os meus antepassados a chamavam, e que passa pelo Casal Caldeira. Recordo o meu pai a explicar que esta era a estrada original, e que as outra estradas que trilhávamos então eram muito recentes.
Não é difícil imaginar gerações sobre gerações a passar neste local. Há 2000 anos Roma conquistou a Ibéria. Eram uma província remota, sem a importância ou opulência das cidades da península itálica, mas ainda assim existiam algumas cidades importantes.
Plínio-o-velho deixou registo da existência de uma dessas cidades algures entre Leiria e Lisboa, mas sem registo preciso da sua localização.
Há 25 anos a construção da auto-estrada 8, ao passar por Óbidos descobriu finalmente a cidade perdida : Eburobrittium. Conquistada a terra pelos romanos a partir do mar, através de um braço que entrava pela terra até ao local, era servida por porto de mar, e só foi abandonada na idade média por causa do assoreamento e por não ser muralhada, o que a fragilizou no caos do fim do império. Óbidos, com o seu castelo e muralhas, ali ao lado, ocupou o lugar da velha cidade romana.
Foi nesta cidade que viveu Gaius Julius Laurus, Senador Romano. Terá sido este homem quem construiu a sua villa a um quilómetro de distância do casal, no vale lá em baixo. A Quinta da Moita Longa, com o seu bosque e os seus loureiros, junto ao rio Gaia.  No topo de outra colina aqui ao lado fica a aldeia de Miragaia, (olhar o Gaia), e na igreja da aldeia está a pedra tumular do velho senador, reaproveitada, como foi norma por milhares de anos: a reutilização de pedras trabalhadas, tão difíceis de obter.

 A Lourinhã e o Casal Lourim  terão sido outras possessões de Gaius Julius Laurus, sendo então a Lourinhã terra alagada e pantanosa. A villa seria mesmo a Moita Longa, ou seja, a mata longa que vinha de Óbidos até aqui ao vale, a São Bartolomeu dos Galegos e ao Toxofal de cima. Não é pois difícil imaginar o cônsul de Roma passar por aqui a cavalo com a sua comitiva, numa viagem de algumas horas. Quase dá vontade de o saudar com um "Avé Gaius Laurus". Mas não, os olhos que agora miram esta paisagem são outros, os espíritos que emprestam consciência a este local são os de hoje.
O velho senador há muito atravessou o Estige, Caronte terá recebido a sua moeda, guardada sob a língua do morto, para pagar o frete. Ainda assim nem tudo se diluiu no pó: as velhas pedras da Moita Longa sussurram estórias de conquistas e de civilização, ou de versos cantados em latim ao som da lira ou do alaúde sob a luz do archote, enquanto se queimava nos incensários rosmaninho e alecrim que perfumavam o ar.  
 Estórias de gládios e de povos nativos, num movimento e num tempo longo, onde tudo parece condenado ao esquecimento, mas onde ainda hoje se escutam ecos desse passado distante. Não é pois difícil imaginar esse tempos. Um bosque denso de carvalhos, azinheiras e sobreiros, lobos a uivar na noite negra sob um céu polvilhado de estrelas, ursos imponentes, cervos e lebres caçados pelos soldados, pelos escravos e pelo senhor, as mulheres da família, as crianças a brincar, como sempre pelos séculos dos séculos. A tua saudação chegou tarde, Gaius: este "Avé" desencontrou-se de ti dois mil anos.
 Mas hoje, ao olhar a velha estrada real, o seu passado glorioso de guerras e conquistas, consigo imaginar-te, sóbrio e altivo no teu cavalo, ora atento ao caminho, ora pensativo nas ocupações da gestão de terras, vilas e cidades. Hoje ainda existe Miragaia, mas o velho Gaia ganhou outro nome: rio Toxofal. Nas suas margens subsistem as poucas árvores nativas que nos falam da outrora bela mata longa. São elas, junto com as pedras quem me sussurra esse passado tão remoto, mas que hoje desfila no meu espírito como um filme realista. É esse o filme que me permite agora esquecer por momentos o horrível deserto de eucaliptos que hoje ocupa o lugar do outrora verdejante bosque nativo, rico de vida e de diversidade. Avé, Gaius Julius Laurus.