domingo, 14 de março de 2021

Da natureza ou da cultura?

 Aí está ele: Apolo, divindade do panteão Helénico.

Atente-se ao detalhe que toda a gente conhece, mas que poucos se questionarão: para que servem as mamas dos homens exactamente?! Se eles não parem nem amamentam porque raio todos nascem com mamilos?
Se está errado, vamos lá corrigir o erro: retirar órgãos inúteis do Ser humano, certo? Errado!
Isto a propósito das publicações homofóbicas do mais baixo e vulgar que circulam no ciber-espaço e nas redes sociais.
Como diz o cartaz da burra de saias, se "se tem pilinha é menino, se tem pipi é menina". Obviamente que a burra nem sonha que na fase embrionária todos os humanos são femininos (ah, e com guelras). engraçado, não? Procurem fotos de um embrião humano, de um réptil e de uma ave e depois tentem adivinhar qual é o humano. São iguais!
Voltando aos pipis e ás pilinhas, percebe-se que os básicos só entendem a sexualidade humana ao nível da genitália. Nem lhes passa pela cabeça que o principal órgão sexual humano é o cérebro, não a "ferramenta". Ora, é na fase embrionária, logo nas primeiras semanas, que o cérebro humano será formatado para ser masculino ou feminino.
Mas a relação dos genes com o meio é complexa e frágil, e no que toca à diferenciação de sexos cria muitas cambiantes. Os estudos já vão dando pistas concretas sobre a orientação sexual dos humanos. Um facto que já se sabe é que um embrião humano se comporta no útero materno como um parasita.
Sim, soa mal, a cultura não gosta de assumir isso. Mas a biologia não: o feto desenvolve-se à custa dos nutrientes que rouba da mãe, o que define uma relação parasitária. Em termos estritamente biológicos é isto que se passa. Acontece que o corpo da mãe reage contra o bebé desenvolvendo anticorpos contra ele. Isso mesmo.
também sabem os biólogos, quantos mais filhos a mulher tiver, mais anticorpos irá produzir. Isso leva à feminilização do cérebro, e a estatística demonstra que a propensão para que os últimos filhos nasçam gays é muito maior. Não é determinista, mas é estatisticamente verificável. As primeiras 12 semanas são determinantes. O equilíbrio hormonal da mulher é vital na formatação do cérebro. Os genitais vêm depois. Em casos extremos um cérebro pode ser transexual: aquele cérebro nasce no corpo errado e a pessoa sabe isso desde sempre.
Quando se trata de um cérebro feminino num corpo masculino o desespero leva muitas vezes à auto-castração, ás vezes a frio. aquela mulher sabe que aquele pénis está ali a mais.
Transexualidade não é classificada como homossexualidade. São pessoas que nascem com a genitália não coincidente com o sexo real. O outro lado é o dos transexuais masculinos. Cérebros masculinos que sabem faltar um pénis naquele corpo. Não são questões menores nem brincadeiras: são pessoas reais e concretas que sofrem com a pressão cultural e são inúmeros os casos de auto-mutilação e de suicídio. Por conseguinte a responsabilidade individual de cada um na orientação sexual é igual à da escolha da cor dos olhos ou da altura: zero. Absolutamente nenhuma.
Entretanto a ciência avança e aprofunda o conhecimento. durante muitas décadas pensou-se que o código genético, o "livro de instruções" que contem tudo o que é necessário para fazer um novo ser poderia ser um guião fixo e determinista. Na verdade as descoberta mais recentes falam de mecanismos mais subtis, introduzindo o conceito da epigenética: trata-se de marcadores genéticos que, em função do meio, de stress, mudança, carência ou abundância reagem, transmitindo ao genoma instruções acerca de um ou mais genes como resposta à pressão ambiental. Nesse sentido a homossexualidade pode ser encarada como mais um recurso para a natureza se auto-regular: um gay ou uma lésbica podem parecer inúteis para a reprodução social, mas na verdade essas variantes da sexualidade servem geralmente para ajudar a criar a prole de alguém com quem partilham genes. O que se sabe com toda a segurança é que orientação sexual nunca é escolha, e que gays, lésbicas ou transgenero são por norma pessoas pacíficas e cooperantes.
Em termos biológicos é assim, em termos culturais existe a pressão para comportamentos estereotipados. A burra de saias brasileira diz que "menino veste azul, menina cor-de-rosa".
Todos os comportamentos de género nos humanos são estereotipados e formatados pela cultura do grupo em que se insere. No que se refere à orientação sexual a ciência observa comportamentos homossexuais em diversos animais: de aves a golfinhos, passando por ovelhas e leões, até aos grandes símios, como os chimpanzés e bonobos, são comportamentos observados e estudados há muito tempo.
Em termos científicos a RDA fez nos anos 60 uma experiência perfeitamente científica, ainda que eticamente execrável: a experiência pavorosa conta-se assim: o país queria ganhar muitas medalhas olímpicas femininas. Tratou de procurar mulheres e homens robustos (eugenia) e fê-los reproduzirem-se entre si. Só vingavam as meninas. Durante aquelas gravidezes injectaram testosterona naquelas mulheres. O resultado do foi claro: quando aquelas meninas se tornaram jovens adultas foram treinadas para os jogos olímpicos. O resultado da experiência foi este: elas ganharam muitas medalhas olímpicas. O outro facto importante que resultou desta experiência é que são todas lésbicas!
Já sabemos o que a testosterona faz às meninas se em excesso durante a gravidez. Ou seja, nesta altura temos a receita perfeita para criar lésbicas e transexuais femininas! é científico, não é nada ético.
Sabemos que não há um gene gay: não é determinista, é fruto de uma relação entre genes e meio. Longe do modelo simplista dos simplórios, a sexualidade dos serem superiores e concretamente dos humanos é diversa.
Dentro da homossexualidade masculina observa-se, além da transexualidade, homossexualidade de elevado grau feminino, moderado grau e gays hiper-masculinos. Há muitas variantes e cambiantes, e depois há a pressão cultural, sempre disponível para infernizar a vida alheia. É engraçado vestir a pele do machão empertigado ou da mulher super-feminina. muitas vezes se sabe como é, públicas virtudes, vícios privados. Faz lembrar aquela aldeia que tinha a "bicha" de estimação para gozarem com ele. No dia em que a "bicha" disse que estava com HIV o machões da aldeia foram todos a correr ao médico fazer análises!
Não, não é assim tão simples: não é porque nasce com pilinha que é automaticamente homem, nem é porque nasce com pipi que é automaticamente mulher. Só burros e ignorantes pensam assim. Muitas vezes fazem-no para esconder as suas fantasias e fragilidades, à conta do sofrimento alheio. A escolha da orientação sexual é da responsabilidade do próprio tanto quanto a escolha da cor dos olhos: zero. Nada. Absolutamente nada!
Antes de virem despejar ignorância e homofobia nas redes olhem-se bem ao espelho, vejam qual é a cor dos olhos e sintam vergonha, muita vergonha por terem olhos castanhos ou verdes. Se tiverem um pingo de vergonha na cara comprem uns óculos para disfarçar, ou escondam-se em casa. Ou melhor, suicidem-se. Agora ninguém tem obrigação de ver a cor dos olhos de ninguém. Tal como ninguém tem a obrigação de ver duas pessoas do mesmo sexo andarem de mãos dadas na rua, ou dar um beijo em público. Como dizia o outro, "o inferno são os outros".

 

9 de janeiro de 2020 
Conteúdo partilhado com: Público
Público
A experiência é simples, e qualquer um de nós a fez em criança: observar um objecto através de um copo de água e perceber que isso distorce e retira nitidez às imagens. Se a água estiver em movimento a imagem irá ondular.
Esse mesmo fenómeno acontece com a atmosfera terrestre.
Feita de azoto, oxigénio e vestígios de outros gases, ainda de vapor e cristais de água, a atmosfera terrestre vibra e ondula, desviando os raios luminosos, absorvendo determinados comprimentos de onda e retirando nitidez às imagens. Qualquer astrónomo já observou esse fenómeno através de um telescópio e já desesperou por causa da distorção desses imagens dos objectos celestes, cuja nitidez é o objectivo primordial. Como não é possível estabilizar o ar atmosférico, permanentemente em movimento dada a energia solar, o vento, a orografia, ou a concentração de vapor de água, restava ao astrónomo esperar dias de atmosfera límpida e calma para proceder ao seu trabalho.
Na Terra já pouco se podia fazer para mitigar esse limite: espelhos cada vez maiores (na astronomia tamanho importa), telescópios no topo de montanhas, em locais desérticos, longe de poluição atmosférica e luminosa.
O grande avanço na Astronomia feita a partir do solo veio com a informática: os computadores permitiram limpar as imagens, e por fim medir em tempo real a distorção da atmosfera através de raios laser, e deformar a óptica dos espelhos para contrabalançar as distorções atmosféricas. A resolução obtida melhorou substancialmente a a partir dos anos 80 do século XX.
Ainda assim era e ainda é uma mitigação. Nunca conseguimos anular totalmente os efeitos da atmosfera.
O sonho de qualquer astrónomo era outro: poder observar acima da atmosfera, livre de qualquer interferência.
A exploração espacial veio finalmente proporcionar essa capacidade: no início dos anos 90 a NASA finalmente colocou um telescópio óptico no espaço. Chama-se Hubble, em honra de um grande astrónomo americano, e orbita a Terra a 400 Kms de altura. Finalmente íamos conseguir as tão ansiadas imagens, puras, capazes de suportar grandes ampliações sem perder a nitidez.
No entanto o Hubble foi inicialmente um enorme flop e uma decepção que custou biliões de dólares á NASA. Por incúria o seu espelho principal foi construído com um erro de curvatura, algo semelhante à miopia humana. As imagens reflectiam aberração esférica!
A NASA levou meses a assumir um erro absolutamente básico e crasso. Bastaria ter montado a óptica em terra e apontado a uma estrela, e logo a olho nu se teria percebido um erro tão grosseiro. Mas o facto é que o Hubble tem um espelho defeituoso. A NASA viu-se na contingência de ter que fazer uma pequena lente correctora, uns "óculos" para corrigir aquela "miopia". O Hubble dava-nos finalmente as imagens puras de que tanto ansiávamos. Mas nem tudo foi contado: o tal menisco corrector filtra alguma luz, e o Hubble perdeu uma magnitude de grandeza, o que equivale a não conseguir observar milhões de objectos. Entre o lançamento, a missão para corrigir a aberração do espelho principal e as missões de manutenção, a NASA já gastou milhares de milhões de dólares num aparelho que, apesar de magnífico, não deixa de ter um espelho com apenas 2,40 metros de diâmetro: um anão, comparado com os gigantescos espelhos em terra, com 8, 16 ou 30 metros de diâmetro! Não é nada consensual para a comunidade de astrónomos a importância deste aparelho. Muitos alegam que com o dinheiro gasto nele se teria feito muita e melhor Astronomia.
O Hubble vale pelo triunfo técnico, pela capacidade de vencer desafios, pela experiência para colocar e operar engenhos de grande complexidade no espaço. O seu sucessor, o James Webb, está prestes a ser lançado no próximo ano, depois de décadas de produção. É mais um péssimo exemplo de como não fazer um telescópio. Uma estória interminável com 20 anos!
Mas o Hubble ainda lá está, e produziu apesar de tudo muita e boa Astronomia. Em 1995 tirou uma fotografia iconográfica, símbolo do triunfo humano: chama-se "os pilares da criação". Imensas colunas de gás e poeiras, maternidades de estrelas que estão a nascer neste momento. Locais futuros para outras Terras, outros mundos, outros pontos azuis pálidos, mundos de água e de terra, temperaturas amenas, vida, luta, impérios e senhores, miséria e grandeza, num sopro futuro daquilo que hoje somos.
Fiquemos então com a poesia dos "pilares da criação"! Magnífico Cosmos. Estranha e assustadora criatura humana, criação e consciência desse Cosmos aqui no pequeno ponto azul claro, perdido algures num braço da espiral da via láctea, orbitando uma pequena mas segura estrela.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Gaius Julius Lauros


De regresso às origens.
Esta é a velha estrada real, tal como os meus antepassados a chamavam, e que passa pelo Casal Caldeira. Recordo o meu pai a explicar que esta era a estrada original, e que as outra estradas que trilhávamos então eram muito recentes.
Não é difícil imaginar gerações sobre gerações a passar neste local. Há 2000 anos Roma conquistou a Ibéria. Eram uma província remota, sem a importância ou opulência das cidades da península itálica, mas ainda assim existiam algumas cidades importantes.
Plínio-o-velho deixou registo da existência de uma dessas cidades algures entre Leiria e Lisboa, mas sem registo preciso da sua localização.
Há 25 anos a construção da auto-estrada 8, ao passar por Óbidos descobriu finalmente a cidade perdida : Eburobrittium. Conquistada a terra pelos romanos a partir do mar, através de um braço que entrava pela terra até ao local, era servida por porto de mar, e só foi abandonada na idade média por causa do assoreamento e por não ser muralhada, o que a fragilizou no caos do fim do império. Óbidos, com o seu castelo e muralhas, ali ao lado, ocupou o lugar da velha cidade romana.
Foi nesta cidade que viveu Gaius Julius Laurus, Senador Romano. Terá sido este homem quem construiu a sua villa a um quilómetro de distância do casal, no vale lá em baixo. A Quinta da Moita Longa, com o seu bosque e os seus loureiros, junto ao rio Gaia.  No topo de outra colina aqui ao lado fica a aldeia de Miragaia, (olhar o Gaia), e na igreja da aldeia está a pedra tumular do velho senador, reaproveitada, como foi norma por milhares de anos: a reutilização de pedras trabalhadas, tão difíceis de obter.

 A Lourinhã e o Casal Lourim  terão sido outras possessões de Gaius Julius Laurus, sendo então a Lourinhã terra alagada e pantanosa. A villa seria mesmo a Moita Longa, ou seja, a mata longa que vinha de Óbidos até aqui ao vale, a São Bartolomeu dos Galegos e ao Toxofal de cima. Não é pois difícil imaginar o cônsul de Roma passar por aqui a cavalo com a sua comitiva, numa viagem de algumas horas. Quase dá vontade de o saudar com um "Avé Gaius Laurus". Mas não, os olhos que agora miram esta paisagem são outros, os espíritos que emprestam consciência a este local são os de hoje.
O velho senador há muito atravessou o Estige, Caronte terá recebido a sua moeda, guardada sob a língua do morto, para pagar o frete. Ainda assim nem tudo se diluiu no pó: as velhas pedras da Moita Longa sussurram estórias de conquistas e de civilização, ou de versos cantados em latim ao som da lira ou do alaúde sob a luz do archote, enquanto se queimava nos incensários rosmaninho e alecrim que perfumavam o ar.  
 Estórias de gládios e de povos nativos, num movimento e num tempo longo, onde tudo parece condenado ao esquecimento, mas onde ainda hoje se escutam ecos desse passado distante. Não é pois difícil imaginar esse tempos. Um bosque denso de carvalhos, azinheiras e sobreiros, lobos a uivar na noite negra sob um céu polvilhado de estrelas, ursos imponentes, cervos e lebres caçados pelos soldados, pelos escravos e pelo senhor, as mulheres da família, as crianças a brincar, como sempre pelos séculos dos séculos. A tua saudação chegou tarde, Gaius: este "Avé" desencontrou-se de ti dois mil anos.
 Mas hoje, ao olhar a velha estrada real, o seu passado glorioso de guerras e conquistas, consigo imaginar-te, sóbrio e altivo no teu cavalo, ora atento ao caminho, ora pensativo nas ocupações da gestão de terras, vilas e cidades. Hoje ainda existe Miragaia, mas o velho Gaia ganhou outro nome: rio Toxofal. Nas suas margens subsistem as poucas árvores nativas que nos falam da outrora bela mata longa. São elas, junto com as pedras quem me sussurra esse passado tão remoto, mas que hoje desfila no meu espírito como um filme realista. É esse o filme que me permite agora esquecer por momentos o horrível deserto de eucaliptos que hoje ocupa o lugar do outrora verdejante bosque nativo, rico de vida e de diversidade. Avé, Gaius Julius Laurus.

Luz trémula

 Luz trémula



SÉRGIO CALDEIRA·SEGUNDA-FEIRA, 12 DE AGOSTO DE 2019·1 MINUTE

50 anos. Meio século. Uma eternidade. Um sopro. Havia o cheiro do petróleo, a mecha curta durante toda a noite a queimar o suficiente para haver a ténue luz de presença que espantava o negro da noite. Nesses tempos a electricidade era uma miragem longínqua e a noite era absolutamente negra quando não havia lua. Havia os vidros farruscos para lavar com cuidado no dia seguinte, havia o apito do pitrolim que vinha vender o petróleo, o azeite, fósforos, massas alimentícias e coisas de mercearia. Havia milhares de pirilampos a bruxelear nas noites quentes de Agosto que apanhávamos às centenas, e havia a alegria da infância breve e feliz onde faltava tudo, excepto o importante: colo e comida no prato. Correr descalço sobre o restolho áspero era pura brincadeira, nem cócegas fazia, e curou o pé chato. Meio século: uma eternidade. Um sopro. Um rol de recordações e de saudades que fazem parecer doce o cheiro de petróleo queimado.

Copyright © Sérgio Caldeira

sábado, 13 de abril de 2019

Sete Espíritos Malignos



Posso indicar o mês: seria certamente Julho, porque me lembro das ameixoeiras que davam ameixas amarelas. Eram três, e nesta altura do ano vergavam sob o peso dos frutos, grandes, sumarentos e muito doces. Caminhava eu criança, talvez com os meus 6 anos, juntamente com os pais e com as irmãs em direcção à vinha. Pedaço de terra que distava mais ou menos a um quilómetro da nossa casa, arrendado ao pai, e de onde se colhiam as uvas por alturas de Setembro.
Íamos sulfatar as cepas, precavendo assim o míldio letal que costumava atacar a vinha quando o nevoeiro avançava por terra, vindo de Peniche, numa altura de calor. Humidade e calor eram calamidade certa que o pai evitava com enxofre e sulfato de cobre. Mas as ameixoeiras ficavam ao pé da nossa casa, no quintal adjacente à casa enorme e em ruínas que o tio João havia construído antes, por volta de 1930 com o dinheiro que ganhou na América.
Nunca se gozou da casa, por conta da eterna visita nunca convidada do anjo negro. A casa ficou vazia, e a propriedade foi comprada por um homem rico da vila que raramente a visitava. Coube ao pai velar pela ruína e respectivo quintal, onde havia as ditas ameixoeiras, mais uma figueira que faziam as delicias das crianças quando os frutos maduros pendiam dos galhos. Assim é a lei imutável desde que o mundo é mundo: o tio João, que morreu muitos anos antes de eu vir ao mundo, plantou as árvores de fruto. Mas o tempo das árvores não se mede pelo tempo dos homens, podendo nós por aí medir a grandeza da alma de um homem, quando ele planta uma árvore sem nunca saber se virá a colher os seus frutos.
O tio João plantou aquelas árvores, e era eu e as manas que os comíamos! Não só nós: a caminho da vinha cruzávamo-nos com a família do “Terramoto”, e lá vinha o “Russo”, menino da mesma idade que eu, a correr e a pedir: “quela pão, quela pão, quela ameixa, quela a meixa” - quero pão, quero pão, quero ameixas, quero ameixas. O Russo era um menino normal, que vivia no casal a seguir ao nosso (no Oeste existem casais, e não montes) e com quem eu brincava muitas vezes.
Vivia ele com os pais e os irmãos, mas foi no irmão Zé que me detive pela estranheza: semi-nu, preso com uma corda à cintura, sentado no chão poeirento, sujo e ausente. O Zé nunca falava connosco nem queria brincar, e eu na minha ignorância de criança achava que seria por ser muito mais velho. Na verdade o Zé levava de avanço apenas mais uns três anos de idade do que eu. Lembro-me que o Zé tinha uns olhos lindos, azuis. Devo ter visto aqueles olhos uma única vez. Quando os adultos passavam e lhe davam os bons dias o Zé permanecia mudo e quedo, mas naquele dia, e por uma única vez, ergueu os olhos à nossa passagem, num esgar que me pareceu uma tentativa de um sorriso. O que aqueles olhos quereriam dizer foi dúvida que ficou a pairar no meu espírito até hoje. Haveria a minha mãe de me explicar mais tarde que o Zé era assim mesmo, “atrasadinho” e que nunca falava nem respondia às pessoas. Ele não era “normal”.
Noutra conversa que escutei, entre a mãe do “Russo” e do Zé e a minha mãe, (porque as crianças não entendem destas coisas e por isso duas mulheres podem partilhar estas conversas à vontade na sua presença), o esclarecimento da primeira: que o Zé estava preso por uma corda à cintura “para não fugir”. Dizia a mãe dele que tinha medo, que havia nascido uma rapariga, e que tinha medo que o filho um dia viesse a “avançar” para a irmã. Maior ainda seria o medo quando ela já fosse mulherzinha! Nessa longa conversa contou que estranhou o comportamento do filho logo à nascença, e para mostrar que era mulher de entendimento e que não se deixava ficar de braço cruzados, havia ido a uma consulta com a bruxa de São Bartolomeu, mulher afamada a quem os pobres aldeões recorriam nas horas das aflições. Foi a bruxa que lhe havia informado que o filho estava possuído por não um, mas por sete espíritos malignos! Era tal a força do mal que nem os seus poderes poderiam fazer algo pelo menino. Desta forma lá continuou o Zézito preso por uma corda, nu, roto, maltrapilho, ás vezes ao frio e à chuva, outras na torreira do Sol, enquanto os pais labutavam na terra pela parca alimentação. E enquanto o tempo avançava, crescia mo medo do Zé “avançar” para a irmã. Havia que resolver a situação, e a solução veio com a ajuda do “estado”. O José foi internado num asilo! Descobri há pouco o fim trágico do menino sempre ausente: o José pôs termo à sua existência no tal asilo. Os “sete espíritos malignos” deixaram de ter um corpo para habitar. Na verdade o Zé era autista profundo. Aconteceu que a pobreza e a ignorância extremas dos anos 70 aliada à incapacidade dos médicos e da sociedade para ajudar atiraram o Zé para um lar. O menino que havia de se tornar adolescente e chegar a jovem adulto ficara cansado da prisão da sua mente e decidira partir. Finalmente liberto da corda, do calor e do frio, do medo e da prisão da sua mente, da ausência dos pais e dos irmãos. Que crime terás cometido tu noutra vida Zé - porque nessa vida não foi seguramente - para mereceres tal castigo? Ou foi o tal Deus omnipotente e omnipresente que na sua infinita frieza e crueldade assim o determinou?! Fosse eu um pintor e eternizaria o teu olhar num quadro. Aquele olhar que por uma vez me lançaste quando eu era um menino de 6 anos e que hoje me parece um grito desesperado clamando por uma ajuda que nunca chegou.

Juncos


Lembraste-me agora de um tempo antigo, embora para mim pareça que foi ontem: há na Lourinhã uma quinta milenar, a quinta da Moita longa, a uns 2 quilómetros da casa dos meus pais. 
A quinta deve ter tido origem durante a ocupação romana, como atestam o bosque de loureiros e a muralha romana. Um tal cônsul romano de nome Laurus terá vivido por lá e terá dado o nome à Lourinhã. 
No limite da quinta, e num vale cavado corre um ribeiro que esconde umas ruínas interessantes: dois tanques enormes de pedra encimados por uma fontainha, um poço cheio de lodo, muitos choupos, e juncos, muitos juncos. Era aí que o meu pai e o meu tio Armando iam todos os anos apanhar os ditos juncos por alturas de Agosto. Mais tarde esse junco seria usado na empa das vinhas.
 É esse tempo que agora recordo, os homens a arrancar junco dos charcos, as mulheres sentadas à sombra fresca do choupal a escolher as melhores plantas, que espalhacam em leques de verde para secarem no cão, e as crianças - onde me incluía - a brincar no ribeiro e nos charcos, a apanhar peixinhos e cobrinhas de água, ou enguias que os adultos fritavam para o almoço. 
Posso fechar os olhos e retomar a esse tempo feliz. Sinto o cheiro da terra quente e húmida, fértil como só a terra rica em água e húmus consegue ser. Vale pequeno e esquecido, hoje totalmente perdido entre canas e silvados.
 
Sinais de um tempo menos antigo, (só tem mil anos), em que os monges e engenheiros da ordem de Cister secaram aquelas terras pantanosas  e onde hoje restam os vestígios de pedra desse esforço que fez recuar o mar mais de uma dezena de quilómetros, até à Areia Branca. Para mim ficou a memória do tempo feliz da infância breve. 
Ainda hoje, quando passo por um jardim que esteja a ser regado, ou onde a relva esteja a ser aparada, retorno de imediato ao tempo da terra quente a cheirar a seiva fresca, aos risos felizes de crianças e adultos, à vida que então corria doce e despreocupada.

A Voz do Dono


De todas as estátuas dos santos da igreja de São Bartolomeu dos Galegos, paróquia a que pertencia, a que mais me impressionava era mesmo a do santo com o mesmo nome: num nicho da parede que separa o altar do corpo da igreja, de ar severo, faca numa mão, e na outra uma corrente com que prendia e segurava o diabo que tinha a seus pés. A figura grotesca do diabo e o ar severo do santo, aliados à estória que acerca dele o pai contava conjuravam-se para criar um medo real no meu imaginário de criança. O ar reprovador dos santos, juntamente com o medo incutido pelo sermão do padre na missa de Domingo faziam com que à noite tivesse pesadelos: os santos, feitos de barro, ganhavam vida - afinal não foi assim que deus criou Adão e Eva?- vinham-me buscar para me entregarem ao fogo eterno do inferno, onde os meus pecados de criança certamente me condenavam. Doçura ali, só mesmo no rosto da Nossa Senhora, a nossa mãe divina, que nos promete colo eterno. Tudo mais naquela igreja é masculino, severo, sofrido e austero. Mas era a tal estória, contada à noite que me deixava a pensar: havia na aldeia um homem que tinha um cordão de oiro e que o perdeu. A aflição de ter perdido tal tesouro levou o nosso personagem a cometer uma imprudência: foi à igreja da aldeia, e prometeu, não a deus ou ou ao santo, mas ao diabo que está aos seus pés, que pagaria vinte escudos se o cordão aparecesse. Coincidência ou intervenção maléfica, o facto é que o cordão de oiro apareceu, e o homem cumpriu a promessa: os vinte escudos foram dados ao diabo. Acontece que na igreja existiam caixas de esmolas para os santos, mas nenhuma para o diabo: afinal, quem cometeria a heresia de fazer promessas ao diabo?! Bom, o homem fez a promessa, o diabo cumpriu a sua parte, e dinheiro tinha que lhe ser dado. Não havendo tal caixa de esmolas, o homem optou por pôr os vinte escudos... na boca do diabo! E lá ficaram por longo tempo. ninguém tinha coragem sequer de lhe tocar; e fazer o quê, com dinheiro oferecido ao anjo caído, à incarnação do mal?! A nota permanecia na boca do diabo, incomodando os paroquianos, o padre e até o sacristão. Foi este que cometeu uma imprudência que lhe custou a vida. Contava o pai que o sacristão um dia perguntou ao padre da paróquia o que fazer com aquele dinheiro. A sugestão do padre foi: “pega nessa nota e queima-a”. O sacristão assim fez, e com esse gesto se condenou. Desde esse dia, quando à noite se deitava, escutava uma voz grave que lhe exigia: “quero o meu dinheiro”. Bem que o sacristão tentou esquecer o gesto: à noite lá vinha o diabo exigir-lhe os seus vinte escudos. Não posso, acabou por confessar o homem: queimei-os. “Então, ao menos devolve-me as cinzas”. Mas as cinzas levou-as o vento!” explicava o pobre homem, incapaz de satisfazer a voz do dono. Nem o diabo teve o seu dinheiro devolvido, nem o sacristão voltou a ter paz. Acabou por cometer suicídio, atirando-se para dentro de um poço. Assim era o Portugal dos anos 70 no Oeste de Portugal, a 70 quilómetros de Lisboa! Analfabeto, atrasado, amedrontado, em larga medida preso nas mãos da Igreja, com resquícios medievais ainda bem marcados. Sem estradas, sequer de gravilha, mas apenas carreiros, poeirentos no Verão, atoleiros de lama no Inverno. Mas nem tudo era mau: A ausência das comodidades modernas deram espaço à imaginação e espicaçaram a curiosidade de uma criança que escutava as estórias antigas à luz da lareira onde se cozinhava a ceia do dia, ou à luz bruxeleante de um candeeiro a petróleo. Não havendo televisão para servir estórias pré-feitas e prontas a consumir, eram mesmo as palavras, primeiro escutadas do pai, depois lidas nos livros que davam uma amplitude e liberdade sem limites à imaginação. Eram um tempo em que o desejo de controlo social pela Igreja era tal que alguns dos seus membros não hesitavam em pôr o diabo em pé de igualdade com deus. Desde que o rebanho se mantivesse submisso não interessava dizer que nada se iguala a deus, pelo menos para aqueles que são bafejados pela sorte do mistério da fé.