terça-feira, 18 de novembro de 2008

À memória da Gisberta

Esta é para ela, mas também para ti... Porque não passou impune nos nossos espíritos. E porque o combate à estupidez humana e à boçalidade nunca tem fim.

Gis. Não sabia que existias, até ao dia em que foste triste notícia. Possa o Universo permitir que sejas agora espírito, e que o teu espírito possa repousar em paz. Perdoa a quem te fez passar por essa terrível provação. Apesar de tudo a existência foi boa para eles. Podem permanecer por uma longa vida, e moldar as suas almas. Para eles ainda existe a possibilidade de redenção. Afinal o barro existe apenas para poder ser moldado.
Aos jovens não bastariam palavras. Pouco sei sobre eles. Enjeitados, filhos que ninguém quer, gente em início de vida, educados na escola da rua e do abandono.
Personalidades (de)formadas na dura escola da vida? Talvez. E os anos que viveram, não lhes bastaram para aprender a escolher? O livre arbítrio ainda lhes é desconhecido? E com que idade deve uma pessoa ser responsabilizada pelas escolhas que faz?

Podemos sempre perdoar aquilo que nos fazem, mas jamais podemos perdoar aquilo que alguém faz a outrem. Apenas posso esperar que o tempo que me resta permita que um dia estas pessoas possam dizer que se arrependeram, que não sabiam o que estavam a fazer. Mas que não paire nos seus espíritos a esperança de que tudo esquece. Eu não esqueço. Por ela. Por ti. Por todos nós.


Tanto por dizer

Haveria ainda tanto por dizer... mas não o poderíeis suportar!

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Premonição


Não sabia quando, não sabia como, mas sabia que um dia aconteceria. E aconteceu. Não exactamente como imaginei - como de resto tudo na minha vida - mas acabei mesmo por ir conhecer o Luso, e trazer de lá memorias que não esquecerei. A sensação de "dejá vue" acompanho-me durante esse magnífico fim de semana. Pareceu-me "cheirar" símbolos maçónicos em vários lugares. Aliás, o sítio tem algo de Sintra, excepto, para deleite meu, a confusão costumeira do "Monte da Lua". Aquela magnífica fonte em escada, provocou-me um verdadeiro arrepio. Construção romântica, absolutamente artificial mas plenamente conseguida, trouxe uma remanescência do passado, uma pintura clássica de uma idealização do jardim do Éden da minha infância. E ali estava ela, diante dos meus olhos! Em silêncio saudei Dionísio, pois aquele espaço era definitivamente Dele. Subi as escadas de pedra cobertas de musgos, avencas e líquenes, molhei as mãos, aspergi algumas gotas de água. Não me surpreende que as fontes sejam consideradas sagradas por tantas culturas, e ao longo de tantos milénios. Faz todo o sentido. Este é pois um lugar do profano. Senti a presença do panteão do Olimpo. Não outro. Subi mais um pouco. Por detrás da fonte descubro as ruínas de uma capela cristã. Sorrio. Cristo não precisa de templos de pedra, creio que habita outras moradas. Definitivamente, este é um Espaço de Dionísio, de ninfas, pagão por excelência, não de campanários e sinos!
Regresso a Lisboa com a sensação de etapa cumprida, serena, tranquila, numa abrangência que apenas eu poderei eventualmente tentar abarcar. Uma estranha premonição varre o meu espírito.

Desejo poder voltar um dia. Seja também esta a vontade dos Deuses.

domingo, 16 de novembro de 2008

Carl Sagan "Pale Blue Dot"

E por falar em pontes... 25 de Abril sempre, sempre...

A ponte & o Cristo Rei


Foi um tranquilo início de noite de sábado, ainda que em pleno Bairro Alto. Um velho amigo que se ausentara por mais de um ano havia regressado a Lisboa, e com o regresso o inevitável jantar no "Sinal Vermelho", que já se tornou um ritual. Ambos apreciamos a tranquilidade do local no início da noite de sábado. A comida excelente, a simpatia dos donos e funcionários, o espaço desafogado (dentro dos padrões do Bairro Alto), tudo leva à nossa "amena cavaqueira" de quem se conhece muito bem, e tem um ano de conversa em atraso. Quando a nossa refeição termina, já a avalanche de clientes se junta à porta, esperando por lugar. sorrimos, como sempre. Nenhum de nós embarcou alguma vez no "filme" do jantar às 11 da noite!
Resolvemos ir tomar o café noutro local. Sugiro-lhe um pequeno bar com esplanada junto ao miradouro do Adamastor. O facto de ficar um pouco mais baixo faz com que passe discreto (felizmente). E àquela hora ainda não se abriu o "clube charro" que nos últimos anos se reúne junto ao Adamastor. A serenidade do início de uma noite sem vento, sem frio, e com uma Lua ainda cheia convidavam à pequena esplanada debruçada sobre o Tejo.
Quando nos aproximamos do local, um jovem casal de estrangeiros aproxima-se. Ela, magra, belíssima (viria a saber um pouco mais tarde que é italiana). Ele, alto, louro, falando um português bastante perceptível com forte pronúncia nórdica, um "ariano puro", de Weimar (informa-nos. Alemanha - desconfiado que ninguém ali saberia da antiga república de Wiemar). Pergunta-nos o jovem se o palácio ao lado, de portas escancaradas se podia visitar. Digo que sim, que habitualmente acontecem exposições e eventos visitáveis. Agradece. De seguida, com um sorriso largo no rosto, pergunta-nos se conhecemos a letra do "mais famoso fado português". Começa a trautear "de quem eu gosto, nem às paredes...). Conheço perfeitamente o dito fado - haverá algum português que não o conheça? - mas de repente não consigo lembrar a letra completa. Digo-lhes que não sou o melhor apreciador de fado do mundo, mas que Amália é para mim um caso aparte. Desconhece o nome. Pego num papel e escrevo-lhe dois ou três nomes de referência, para uma possível pesquisa na net. Amália, (é claro), mas também o Carlos do Carmo, a Hermínia e o Marceneiro. Agradece-nos (a namorada não fala português). Digo-lhes que vamos tomar um café ali ao lado, e fica o convite ao jovem casal para se juntar a nós. Eles dirigem-se ao palácio, nós seguimos para a esplanada. Alguns minutos depois aparecem. Não quiseram pagar 10€ para ver uma exposição de mobiliário moderno. Reiteramos o convite, e aí vamos nós tomar um café. Do seu lado, pediram um moscatel de Setúbal (boa escolha, penso eu). A jovem, apesar de não falar português, entende a maior parte da conversa. O meu amigo, por seu lado, só fala português. Desta forma, o diálogo foi-se desenvolvendo entre o inglês, o português, o alemão, o francês (que partilho com a jovem Sophia) e o italiano. Que bela representação da Europa. Ali estava um grupo improvável, de cidadãos desta Europa que tem de facto - cada vez me convenço mais disso, uma matriz comum, que tem assuntos que a todos nos toca enquanto europeus. A diversidade, sobretudo das línguas, os diferentes fenótipos, mas coisas em comum. Voltamos ao fado, às suas prováveis raízes, à Mouraria. Explicam-nos que são estudantes Erasmus. O jovem Alemão confessa que Portugal foi uma aventura no desconhecido, mas demonstra estar rendido. Fala inclusive em comprar casa. A jovem não me parece tão convencida, diz meio a rir meio a sério (preocupação?) que o seu namorado se apaixonou pelo nosso país. Ora aí está algo digno de ressalva. Um alemão apaixonado por esta comunidade imaginada a que chamamos Portugal (ainda que imaginada há muito mais tempo que outras, como a Alemã, a Italiana, ou qualquer outra nacionalidade Europeia). Vou relembrando a letra do fado que o jovem me tinha pedido, e vou-lha dizendo. Falamos dos respectivos cursos, (surpreendem-se por andar na universidade tão velho), fala-mos do mundo, de cultura. Entrego-lhes um pequeno papel com o meu mail. Em breve teria-mos que ir embora, mas parto com a sensação de que ficou ainda muito por dizer, por partilhar, neste encontro improvável, mas muito, muito enriquecedor. Tinha conhecido o Mosteiro de Alcobaça. Quer saber quem repousa nos dois túmulos nas laterais da nave central. Falho-lhes da nossa versão (real) de Romeu e Julieta, de Pedro e da bela Inês, que depois de morta foi rainha, do mito do "beija mão", do porquê estarem de frente um para o outro . Numa Europa que traz consigo tantas guerras e devastação, ficou este pequeno apontamento. Uma ponte entre pessoas tão diferentes e tão iguais, com a 25 de Abril que brilhava lá mais em baixo, com um enorme Cristo Rei que parecia estar mesmo a abençoar Lisboa. Creio que ainda nos voltaremos a juntar todos, pois quando partimos ficamos todos com a sensação de que ficou muito por dizer, por contar. Se assim for, será seguramente um prazer.


sexta-feira, 14 de novembro de 2008

De corpo e alma























"Quem toca um corpo, ainda que fuzamente, toca também uma alma".

David Leavit, in "Enquanto a Inglaterra dorme".

Créditos:
http://pinturasespeciaisecia.com.br/