
Uma semana ausente. Em França, no "Pays de la Loire". Vou a trabalho, pouco resta para o lazer. Mas a viagem ao longo do rio compensa.



Asas fechadas
São cansaço ou queda
Pedra lançada
Ou vôo que repousa
Ai, meu sorriso, a mim entrega
E meu olhar não ousa...
Asas fechadas
Dizem dois sentidos
Ambos iguais
E versos verticais
No teu sorriso só pressinto
Um sofrimento mais...
Asas fechadas
Desce quem subiu
Buscar a terra
É ter fé lá no céu
Nos sorrisos indecisos
Outro sonho nasceu...
Asas fechadas
Sonho ou desespero
Ponto final
Ou ascensão sem par
Nestes sorrisos espero
Por não saber chorar...
É prudente o silêncio
De quem só sabe sonhar...




Fizeste 7 anos, e já andas todo ufano por estares na escola dos meninos grandes. Chegas a casa entusiasmado, e mostras-nos as letras que já aprendeste, pedes ajuda nos trabalhos de casa. Não és meu filho, mas para nós é como se fosses. Ainda ontem, num deslize freudiano me chamas-te pai. Tio ou pai pouco importa. Adivinhava a tua vinda quando ela parecia a todos muito improvável, e nestas relações de parentesco não há rivalidade. Dei-te a prenda que tu tanto querias: um transformer horrível, meio máquina, meio tanque de guerra. Mas não achamos boa ideia esconder-te a violência que vai no mundo. Achamos que tens que saber da sua existência, conviver de forma responsável com esse facto da vida. Só escrevo isto porque sei que não vais ler, pelo menos para já. Talvez um dia, quando eu não passar de uma memória, isto te venha parar às mãos. Alguém anda já atarefado a guardar estas memórias da humanidade, e assim sendo, quem sabe um dia? Se assim for, não fiques triste ou infeliz. Fica sabendo que adorei passar pela vida, e que a tua vinda foi para mim uma das maiores alegrias. Mas isso já tu sabes hoje mesmo.
Renault, Mary (1972) O Jovem Persa, Lisboa, Assírio & Alvim, 112


Erastótenes (275-195) 