sábado, 13 de abril de 2019

Sete Espíritos Malignos

Posso indicar o mês: seria certamente Julho, porque me lembro das ameixoeiras que davam ameixas amarelas. Eram três, e nesta altura do ano vergavam sob o peso dos frutos, grandes, sumarentos e muito doces. Caminhava eu criança, talvez com os meus 6 anos, juntamente com os pais e com as irmãs em direcção à vinha. Pedaço de terra que distava mais ou menos a um quilómetro da nossa casa, arrendado ao pai, e de onde se colhiam as uvas por alturas de Setembro. Íamos sulfatar as cepas, precavendo assim o míldio letal que costumava atacar a vinha quando o nevoeiro avançava por terra, vindo de Peniche, numa altura de calor. Humidade e calor eram calamidade certa que o pai evitava com enxofre e sulfato de cobre. Mas as ameixoeiras ficavam ao pé da nossa casa, no quintal adjacente à casa enorme e em ruínas que o tio João havia construído antes, por volta de 1930 com o dinheiro que ganhou na América. Nunca se gozou da casa, por conta da eterna visita nunca convidada do anjo negro. A casa ficou vazia, e a propriedade foi comprada por um homem rico da vila que raramente a visitava. Coube ao pai velar pela ruína e respectivo quintal, onde havia as ditas ameixoeiras, mais uma figueira que faziam as delicias das crianças quando os frutos maduros pendiam dos galhos. Assim é a lei imutável desde que o mundo é mundo: o tio João, que morreu muitos anos antes de eu vir ao mundo, plantou as árvores de fruto. Mas o tempo das árvores não se mede pelo tempo dos homens, podendo nós por aí medir a grandeza da alma de um homem, quando ele planta uma árvore sem nunca saber se virá a colher os seus frutos. O tio João plantou aquelas árvores, e era eu e as manas que os comíamos! Não só nós: a caminho da vinha cruzávamo-nos com a família do “Terramoto”, e lá vinha o “Russo”, menino da mesma idade que eu, a correr e a pedir: “quela pão, quela pão, quela ameixa, quela a meixa” - quero pão, quero pão, quero ameixas, quero ameixas. O Russo era um menino normal, que vivia no casal a seguir ao nosso (no Oeste existem casais, e não montes) e com quem eu brincava muitas vezes.
Vivia ele com os pais e os irmãos, mas foi no irmão Zé que me detive pela estranheza: semi-nu, preso com uma corda à cintura, sentado no chão poeirento, sujo e ausente. O Zé nunca falava connosco nem queria brincar, e eu na minha ignorância de criança achava que seria por ser muito mais velho. Na verdade o Zé levava de avanço apenas mais uns três anos de idade do que eu. Lembro-me que o Zé tinha uns olhos lindos, azuis. Devo ter visto aqueles olhos uma única vez. Quando os adultos passavam e lhe davam os bons dias o Zé permanecia mudo e quedo, mas naquele dia, e por uma única vez, ergueu os olhos à nossa passagem, num esgar que me pareceu uma tentativa de um sorriso. O que aqueles olhos quereriam dizer foi dúvida que ficou a pairar no meu espírito até hoje. Haveria a minha mãe de me explicar mais tarde que o Zé era assim mesmo, “atrasadinho” e que nunca falava nem respondia às pessoas. Ele não era “normal”. Noutra conversa que escutei, entre a mãe do “Russo” e do Zé e a minha mãe, (porque as crianças não entendem destas coisas e por isso duas mulheres podem partilhar estas conversas à vontade na sua presença), o esclarecimento da primeira: que o Zé estava preso por uma corda à cintura “para não fugir”. Dizia a mãe dele que tinha medo, que havia nascido uma rapariga, e que tinha medo que o filho um dia viesse a “avançar” para a irmã. Maior ainda seria o medo quando ela já fosse mulherzinha! Nessa longa conversa contou que estranhou o comportamento do filho logo à nascença, e para mostrar que era mulher de entendimento e que não se deixava ficar de braço cruzados, havia ido a uma consulta com a bruxa de São Bartolomeu, mulher afamada a quem os pobres aldeões recorriam nas horas das aflições. Foi a bruxa que lhe havia informado que o filho estava possuído por não um, mas por sete espíritos malignos! Era tal a força do mal que nem os seus poderes poderiam fazer algo pelo menino.
Desta forma lá continuou o Zézito preso por uma corda, nu, roto, maltrapilho, ás vezes ao frio e à chuva, outras na torreira do Sol, enquanto os pais labutavam na terra pela parca alimentação. E enquanto o tempo avançava, crescia mo medo do Zé “avançar” para a irmã. Havia que resolver a situação, e a solução veio com a ajuda do “estado”. O José foi internado num asilo!
Descobri há pouco o fim trágico do menino sempre ausente: o José pôs termo à sua existência no tal asilo. Os “sete espíritos malignos” deixaram de ter um corpo para habitar.
Na verdade o Zé era autista profundo. Aconteceu que a pobreza e a ignorância extremas dos anos 70 aliada à incapacidade dos médicos e da sociedade para ajudar atiraram o Zé para um lar. O menino que havia de se tornar adolescente e chegar a jovem adulto ficara cansado da prisão da sua mente e decidira partir. Finalmente liberto da corda, do calor e do frio, do medo e da prisão da sua mente, da ausência dos pais e dos irmãos.
Que crime terás cometido tu noutra vida Zé - porque nessa vida não foi seguramente - para mereceres tal castigo? Ou foi o tal Deus omnipotente e omnipresente que na sua infinita frieza e crueldade assim o determinou?!
Fosse eu um pintor e eternizaria o teu olhar num quadro. Aquele olhar que por uma vez me lançaste quando eu era um menino de 6 anos e que hoje me parece um grito desesperado clamando por uma ajuda que nunca chegou.

Juncos

Lembraste-me agora de um tempo antigo, embora para mim pareça que foi ontem: há na Lourinhã uma quinta milenar, a quinta da Moita longa, a uns 2 quilómetros da casa dos meus pais. A quinta deve ter tido origem durante a ocupação romana, como atestam o bosque de loureiros e a muralha romana. Um tal cônsul romano de nome Laurus terá vivido por lá e terá dado o nome à Lourinhã. No limite da quinta, e num vale cavado corre um ribeiro que esconde umas ruínas interessantes: um tanque enorme de pedra encimado por uma fontainha, um poço cheio de lodo, muitos choupos, e juncos, muitos juncos. Era aí que o meu pai e o meu tio Armando iam todos os anos apanhar os ditos juncos por alturas de Agosto. Mais tarde esse junco seria usado na empa das vinhas. É esse tempo que agora recordo, os homens a arrancar junco dos charcos, as mulheres sentadas à sombra fresca do choupal a escolher as melhores plantas, e as crianças - onde me incluía - a brincar no ribeiro e nos charcos, a apanhar peixinhos e cobrinhas de água, ou enguias que os adultos fritavam para o almoço. Posso fechar os olhos e retomar a esse tempo feliz. Sinto o cheiro da terra quente e húmida, fértil como só a terra rica em água e húmus consegue ser. Vale pequeno e esquecido, hoje totalmente perdido entre canas e silvados. Sinais de um tempo menos antigo, (só tem mil anos), em que os monges e engenheiros da ordem de Cister secaram aquelas terras pantanosas, onde hoje restam os vestígios de pedra desse esforço que fez recuar o mar mais de uma dezena de quilómetros, até à Areia Branca. Para mim ficou a memória do tempo feliz da infância breve. Ainda hoje, quando passo por um jardim que esteja a ser regado, ou onde a relva esteja a ser aparada, retorno de imediato ao tempo da terra quente a cheirar a seiva fresca, aos risos felizes de crianças e adultos, à vida que então corria doce e despreocupada.

A Voz do Dono

De todas as estátuas dos santos da igreja de São Bartolomeu dos Galegos, paróquia a que pertencia, a que mais me impressionava era mesmo a do santo com o mesmo nome: num nicho da parede que separa o altar do corpo da igreja, de ar severo, faca numa mão, e na outra uma corrente com que prendia e segurava o diabo que tinha a seus pés. A figura grotesca do diabo e o ar severo do santo, aliados à estória que acerca dele o pai contava conjuravam-se para criar um medo real no meu imaginário de criança.
O ar reprovador dos santos, juntamente com o medo incutido pelo sermão do padre na missa de Domingo faziam com que à noite tivesse pesadelos: os santos, feitos de barro, ganhavam vida - afinal não foi assim que deus criou Adão e Eva?- vinham-me buscar para me entregarem ao fogo eterno do inferno, onde os meus pecados de criança certamente me condenavam. Doçura ali, só mesmo no rosto da Nossa Senhora, a nossa mãe divina, que nos promete colo eterno. Tudo mais naquela igreja é masculino, severo, sofrido e austero.
Mas era a tal estória, contada à noite que me deixava a pensar: havia na aldeia um homem que tinha um cordão de oiro e que o perdeu. A aflição de ter perdido tal tesouro levou o nosso personagem a cometer uma imprudência: foi à igreja da aldeia, e prometeu, não a deus ou ou ao santo, mas ao diabo que está aos seus pés, que pagaria vinte escudos se o cordão aparecesse. Coincidência ou intervenção maléfica, o facto é que o cordão de oiro apareceu, e o homem cumpriu a promessa: os vinte escudos foram dados ao diabo. Acontece que na igreja existiam caixas de esmolas para os santos, mas nenhuma para o diabo: afinal, quem cometeria a heresia de fazer promessas ao diabo?! Bom, o homem fez a promessa, o diabo cumpriu a sua parte, e dinheiro tinha que lhe ser dado. Não havendo tal caixa de esmolas, o homem optou por pôr os vinte escudos... na boca do diabo! E lá ficaram por longo tempo. ninguém tinha coragem sequer de lhe tocar; e fazer o quê, com dinheiro oferecido ao anjo caído, à incarnação do mal?! A nota permanecia na boca do diabo, incomodando os paroquianos, o padre e até o sacristão. Foi este que cometeu uma imprudência que lhe custou a vida. Contava o pai que o sacristão um dia perguntou ao padre da paróquia o que fazer com aquele dinheiro. A sugestão do padre foi: “pega nessa nota e queima-a”. O sacristão assim fez, e com esse gesto se condenou. Desde esse dia, quando à noite se deitava, escutava uma voz grave que lhe exigia: “quero o meu dinheiro”. Bem que o sacristão tentou esquecer o gesto: à noite lá vinha o diabo exigir-lhe os seus vinte escudos. Não posso, acabou por confessar o homem: queimei-os. “Então, ao menos devolve-me as cinzas”. Mas as cinzas levou-as o vento!” explicava o pobre homem, incapaz de satisfazer a voz do dono.
Nem o diabo teve o seu dinheiro devolvido, nem o sacristão voltou a ter paz. Acabou por cometer suicídio, atirando-se para dentro de um poço.
Assim era o Portugal dos anos 70 no Oeste de Portugal, a 70 quilómetros de Lisboa! Analfabeto, atrasado, amedrontado, em larga medida preso nas mãos da Igreja, com resquícios medievais ainda bem marcados. Sem estradas, sequer de gravilha, mas apenas carreiros, poeirentos no Verão, atoleiros de lama no Inverno. Mas nem tudo era mau: A ausência das comodidades modernas deram espaço à imaginação e espicaçaram a curiosidade de uma criança que escutava as estórias antigas à luz da lareira onde se cozinhava a ceia do dia, ou à luz bruxeleante de um candeeiro a petróleo. Não havendo televisão para servir estórias pré-feitas e prontas a consumir, eram mesmo as palavras, primeiro escutadas do pai, depois lidas nos livros que davam uma amplitude e liberdade sem limites à imaginação.
Eram um tempo em que o desejo de controlo social pela Igreja era tal que alguns dos seus membros não hesitavam em pôr o diabo em pé de igualdade com deus. Desde que o rebanho se mantivesse submisso não interessava dizer que nada se iguala a deus, pelo menos para aqueles que são bafejados pela sorte do mistério da fé.

D. Alice

Foi um tempo de mudança. Apesar da protecção relativa do lugar onde habitava e de viver nessa altura a minha infância, tudo foi intenso e vivido. A guerra de África era um medo real, muitos jovens de então participaram nela, defendendo um império em ruína e uma população de colonos, muitos deles abastados, contra a exploração dos nativos e espoliação das suas terras e dos seus recursos. Nem todos regressaram vivos. Foram matar pretos por ordem de um regime que não tolerava questionamentos. Os que regressavam vivos vinham com traumas de guerra que os acompanham pela vida fora. Rios de sangue e negros enterrados vivos são imagens impossíveis de apagar, mesmo que a vida decorresse agora tranquila e vagarosa na bocolidade da aldeia.
Tudo isso chegava até mim como uma estória fantástica. Às vezes escutava a mãe dizer que preferia morrer a ver o seu único filho ir para a guerra. A guerra acabou antes de me tornar homem e a mãe morreu jovem sem ter visto o filho ir para África.
A minha guerra era outra: corria o ano de 1974 e eu tinha 6 anos. Em Abril acontece a revolução, em Setembro eu entro para a escola primária.
A escola não era na altura apresentada como algo bom: pelo contrário, era algo difícil e a professora costumava castigar os meninos. De tabefes a puxões de orelhas até às temidas reguadas, o rol de horrores era-nos apresentado muito antes. Se o objectivo era incutir terror, não havia dúvida que era plenamente conseguido. O único alívio era saber que tinha chegado uma nova professora primária, a d. Manuela. Pelo menos até á terceira classe estaria relativamente protegido da violência da d. Alice.
A fama vinha de longe: d. Alice era a professora da aldeia e havia duas coisas que todos sabiam: uma boa, outra nem por isso. A boa era que os alunos dela aprendiam mesmo, e que quando no final da quarta classe eram levados á Vila para o exame nacional, todos passavam, muitos deles com distinção. A ida á Vila fazer o exame era ela mesma uma experiência terrível para as crianças. Um local diferente, estranho e assustador, aliado ao medo de chumbar no exame. - Se passares de ano filha, prometeram os meus pais á minha irmã Maria, anos antes, terás um bife para o almoço. Passar passou, e o precioso bife de vaca foi comprado, mas a distracção dos pais deixou que o Leão, cão preto do ti Manel o roubasse, a que este se abifasse ao bife que filou. A Maria passou o exame da quarta classe com distinção, mas o almoço foram ovos de rola que o pai tirou do ninho ao pé da vinha. Foi um almoço regado com lágrimas pelo desejo de um bife que o Leão roubou e comeu.
O lado mau era, é claro, a rispidez da professora, sempre disponível para o tabefe e para a reguada.
Por dois anos não passei por tal terror. A d. Manuela era uma jovem doce que raramente nos castigava, e quando o fazia era por temer a colega mais velha que lhe impunha medo, quase tanto quanto o medo que nos incutia a nós.
O 25 de Abril aconteceu, a guerra acabou, voltaram os militares e mais tarde os retornados, e meses depois entrava eu na escola.
D. Alice era uma mulher mais velha: mulher solteira e amargurada, fria e ríspida, autoritária e rigorosa no ensino. Simpatizante do Estado Novo e da velha ordem, ainda que esse mesmo regime lhe tenha roubado regalias e liberdades.
Ser mulher e professora nos tempos sombrios do salazarismo traziam obrigações e limites que d. Alice aceitou e tomou para si. Uma coisa era certa: com ela todos os meninos e meninas aprendiam a ler e a escrever e também a fazer as contas, em especial as temidas contas de multiplicar e as de dividir, a prova dos nove e o terror da prova real pela inversa!
A casa que o estado arranjou para a d. Alice era logo ao lado da escola, uns 100 metros se tanto. Ficava ao lado da estrada e nós tínhamos forçosamente de passar frente à casa para chegar à escola. Antes da professora chegar perfilávamos todos em duas filas, meninos de um lado, meninas do outro. Era uma casa imponente, quando comparada com as casas humildes dos pobres aldeões analfabetos: um primeiro andar, umas escadas externas que levavam ao primeiro andar, vários quartos e dependências, telhado de três águas e um conforto que só os mais abastados da aldeia podiam igualar.
Entrar na escola em ano de revolução trouxe naturais mudanças. Lembro-me da aflição e do medo da d. Alice que nos queria ensinar tendo apenas por material didáctico os velhos livros e canetas vindos do tempo do antigo regime. Mas o regime democrático ainda não tinha tido tempo para reformular currículos e livros, ninguém sabia se Portugal iria virar um satélite da comunista URSS, e a d. Alice mais a d. Manuela lá nos foram ensinando com recurso aos velhos livros salazarentos. "I" de igreja. "O Holofote ilumina o estádio". "O Hábito do monge"... Lembro com fascino as imagens coloridas e as letras que, como por magia, se iam juntando para formar palavras, ideias, contando estórias. Lembro as mesas de estudo em madeira, com tampo inclinado, assento embutido, ranhura para lápis e canetas não rolarem e tinteiro para molhar a caneta de aparo.
A segunda classe mudou tudo: os livros mudaram, perderam a cor e ganharam conteúdos novos. " Uma gaivota voava, voava, asas de vento, coração de mar. Como ela somos livres, somos livres de voar....".
Tempos depois mudaram também as mesas das escola. Os confortáveis tampos inclinados, vindos desde a Idade Média, foram repentinamente substituídas pelas estúpidas mesas de tampo plano, desconfortáveis e nada anatómicas. Como compensação a revolução lá trouxe a energia eléctrica, para nosso conforto e alegria: em vez de apenas a luz natural das grandes janelas, havia agora lâmpadas fluorescentes e supremo conforto, um aquecedor eléctrico que matava o frio gélido de Janeiro.
E a temida terceira classe chegou, e com ela a mudança para as mãos da d. Alice. Não que o regime de medo fosse o mesmo. Não: uns anos antes ela tinha dado uma tareia numa menina que morava na casa frente à sua. Quando a mãe da menina mostrou o corpo dela à minha mãe, cheio de nódoas negras, a minha mãe prometeu que aquilo não ficava assim. Falou com o professor Lamy, homem de Lisboa e ligado ao PS, e semanas depois d. Alice recebia uma inspecção e uma admoestação. Dali em diante os castigos corporais ficaram uma sombra do que foram. Acabaram também as aulas de reforço na casa da d. Alice. Justiça seja feita, quando ela percebia que os alunos tinham dificuldades de aprendizagem levava-os para a sua casa e lá continuavam as lições. Para amenizar o medo das crianças existia a mãe da professora, uma senhora meiga e afável que por gestos lá ia ajudando os meninos. Ali em casa cada criança levava uma cadeirinha ou banco para se sentar e rever a matéria, enquanto não raras vezes a criada da casa preparava chá e torradas para as senhoras, cujo perfume acicatava a fome de algumas crianças que por via do dia longo e dos afazeres se fazia sentir. Mas ali o chá e as torradas eram curtos e não podiam ser partilhados. No Natal sim: d. Alice comprava um grande saco de línguas de gato que dividia rigorosamente pelas crianças, que dessa forma tinham acesso a uma guloseima tão rara. Era a época de fazer o enorme presépio. Íamos ao campo apanhar musgos e líquenes, e com ele a d. Alice fazia o maior e mais bonito presépio das aldeias em redor. Figurinhas de barro pintado recriavam um tempo remoto numa mescla de eras que em nada reproduziram a verdadeira época em que no menino Jesus nasceu. Não importava: nem nós sabíamos o que eram dois mil anos ou o que seria Israel nesse tempo. O que importava mesmo era a folga e a alegria do Natal. Houve um ano, creio que logo na primeira classe, em que a d. Alice inovou: fez um presépio vivo. A Cristina era a nossa Senhora, o Gregório o são José, e adivinhem.... eu como menino Jesus. Lembro o horror e a vergonha de ser obrigado a estar deitado nas palhas dentro de uns ridículos colants. Imaginem: só meninas usavam tal peça de roupa, e de repente ali estava eu naquela figura! Mas os sonhos de abóbora que uma mãe levou e que comemos no fim da peça...ah, esses eu nunca esqueci! Eram quase tão bons quanto as filhoses que a mãe fazia na véspera do Natal.
Desta forma a entrada na terceira classe foi muito mais amena para nós. Ainda assim não me livrei de algumas reguadas. Mas poucas. Nunca fui criança rebelde ou mal educado. Apanhei por me ter esquecido de fazer os trabalhos de casa para as férias. Distraído, só peguei neles na véspera já à luz do candeeiro a petróleo. Não só não consegui fazer todos os trabalhos, como ainda por cima sujei a sebenta com uma nódoa de azeite. No dia do regresso às aulas já sabia que iria apanhar. E apanhei mesmo!
Todos nós sabíamos os sinais de cor: os cadernos eram levados no fim do dia para revisão: se no dia seguinte enfileirados para entrar na sala a d. Alice viesse com ar zangado e rosto vermelho era certo que no mínimo vinha tabefe a seguir. As borrachas de apagar a sebenta estavam sujas? Tabefe. Éramos apanhados a esfregar as ditas borrachas nas calças para retirar o negro dos lápis? Tabefe. Se caía um pingo de tinta das temíveis canetas de aparo ou dos tinteiros que sujavam os cadernos ou a prova? Tabefe ou reguada. Se estávamos a desenhar uma letra e não levantava-mos a caneta para desenhar a perninha do A ou do D, tabefe! Era assim mesmo. Um dia a Lídia foi chamada ao quadro para resolver um problema de aritmética. O medo era tanto que se mijou toda.
Um dia quis bater com a régua na minha irmã Fátima. Só que ela teve coragem: escondeu as mãos e afrontou a professora com olhar desafiador, fazendo-a recuar.
Um menino era esquerdino? Coisa sinistra, era obrigado a escrever com a mão direita. A minha outra irmã Marília era ligeiramente disléxica: durante anos dizia "estogamo" em vez de estômago. Não apanhou por isso, mas teve que se esforçar.
Se o frio apertava no Inverno - e como aperta no clima do húmido do Oeste - e a criança levava roupa interior vestida para se proteger era mandada de volta a casa para se trocar com o epíteto de porca. Eram 4 quilómetros a pé para cada lado, a pé e por caminhos de terra batida.
E hoje? Hoje a casa está em ruínas. Nunca entendi porque é que aquela bela casa ficou desabitada depois da aposentação da professora. Havia ao lado um forno de cal abandonado. A terra é rica em calcário e o velho forno de cal lá permanecia, usado como lixeira. Era uma bonita casa que contrastava com a dureza de quem a habitava.
Hoje vivemos outros tempos. Hoje ninguém pode bater numa criança. Felizmente. Hoje o sistema só peca por se ter esquecido que as crianças são frágeis e por isso devem ser protegidas, mas que os adultos são quase tão frágeis quanto crianças, e que a eles ninguém os protege. Hoje os papéis não se equilibraram: inverteram-se, e temos agora muitas crianças feitas tiranetes. Elas sabem que ninguém as pode castigar e, como crianças que são, tornam-se carrascos de professores e de auxiliares. O círculo rodou 180°!
Todos os tempos têm as suas dificuldades. A contemporaneidade também. Mas nada se pode comparar aos tempos sombrios da "outra senhora".
Nada no tempo do Salazarismo que ainda vivi merece ser admirado. Foi um tempo de miséria medo e repressão que até na escola se sentia. Salvou-me o carinho e o calor da família, e as saúde e força que a juventude não permitiram derrubar.

Sina

"Tão Zé, sempre sozinho? Porque nunca arranjaste uma mulher? Olha que uma companhia só te faz falta. Ainda podes encontrá-la!"
A pergunta bateu seca, dura como um murro directo no estômago. Já devia saber de cor e salteado a resposta estudada, mas essa aqui era inútil. Desde menino que sabia a outra resposta, mas há verdades que nunca podem ser ditas. Ali, como sempre. Do alto dos seus 70 anos, o mesmo olhar fechado, o rosto de pedra, cabisbaixo, a velha dor de sempre, calada, renegada, inquieta, e o peso de um segredo que escondia no coração cansado. Não, ao primo Manel não adiantava mentir, mas também não podia falar-lhe a verdade. Aquela que ambos conheciam desde meninos, quando a vida se revelava no esplendor da infância e adolescência. Era o tempo em que tudo parecia possível e puro, vidas diante dos olhos acabados de abrir, inteiras, cheias de promessas e de possibilidades. Anos e anos infindáveis com a felicidade ali na frente. Era como a linha do horizonte que ambos viam no mar enquanto corriam descalços pelos caminhos da aldeia, às vezes empoeirados, outra vezes enlameados. Aquele mar hipnótico, que em fins de tardes ficavam ambos a fitar, o sol gigante, alaranjado, afogando-se lentamente numa vastidão de águas luminosas. Bastaria andar um pouco, até à praia, depois umas remadas, algum esforço e essa linha seria atingida. Mas esses passos nunca foram dados e nenhum barco surgiu que pudessem remar até essa linha. Os 10 quilómetros até ao mar cedo se revelaram-se um muro intransponível, assim como as obrigações que a vida impunha a homens que nunca puderam ser meninos. A linha continuava lá mas os caminhos de terra batida, os pés descalços e a obrigação de arrancar o sustento à terra cedo prenderam passos e sonhos.
Zé tinha uma sina: toda a gente sabe que quando nascem sete mulheres seguidas numa família, coisa nada impossível naquela época, uma delas seria bruxa. Fado ruim, mulheres que tinham pacto com o diabo e que à noite benziam os seus homens com o cu, garantindo assim que eles não acordariam até que regressassem das suas andanças por caminhos e encruzilhas esconsas, acompanhadas por outras bruxas e sob domínio do diabo, em orgias de sexo. Havia formas de quebrar o encanto. Uma delas, bem simples, era uma das sete irmãs ser madrinha de outra. A santa madre igreja assim o consentia, para bem do mundo que desta forma se livrava de bruxas, por definição más e com pacto com o demo.
Outra forma de quebrar o feitiço era um homem passar por acaso à noite onde as bruxas dançavam nesses cruzamentos, vagando como luzes de pirilampos. Se um homem passasse ali com uma junta de bois ou um burro e picasse uma delas com o aguilhão das bestas, imediatamente a bruxa cairia a seus pés, nua como veio ao mundo, já que era dessa forma que o anjo caído a queria para si. O quebranto seria quebrado e as outras davam-se a conhecer. Mas se aquela que tinha sido picada e por isso perdido o quebranto se via livre do fado, as outras permaneciam bruxas e tratariam de matar o homem se ele algum dia revelasse quem elas eram!
Zé é nome de homem, já se vê. Mas o Zé teve a infelicidade de ter nascido numa sequência de sete irmãos, e por isso foi fadado. Os pais não quiseram quebrar esse fado fazendo um dos filhos ser padrinho de outro, e calhou ao Zé cumprir a sua sina: Zé era lobisomem e os pais carregaram para sempre o peso de não terem quebrado a sina do filho.
" - Que queres tu que te diga Manel, se tenho esta sina?". Assim mesmo o escutei, enquanto me fingia de distraído com uma qualquer brincadeira de criança. Mas o espanto ficou-me marcado: um homem acabava de confirmar diante de mim um dos receios mais primitivos, havia mesmo lobisomens! Assunto de homens sérios e de tino, desta forma eram iniciados os meninos da aldeia nos mistérios do mundo.
Convém aqui dizer que a sina de lobisomem em nada se assemelha à maldição das bruxas: ao contrário destas, ser lobisomem é apenas uma sina que deus dá, mas não há nisso qualquer pacto com o mal.
Havia sinais inequívocos sobre o fado do Zé: um lobisomem tem sempre as sobrancelhas pegadas. O Espaço sobre o nariz nunca está despido, também aí os pêlos nascem. Outro sinal era possuir as nozes dos dedos calejadas por conta de trilhar os caminhos das redondezas em noites de lua cheia, nu e transformado num animal. Sabe-se que um lobisomem ao sair de casa se despe, deixando as roupas viradas do avesso, e ao encontrar o primeiro rasto de um animal nele se espoja, transformando-se nesse animal. Um episódio bizarro traçou definitivamente a sina do Zé. Jovem na força dos 30 anos, numa noite de luar acordou na sua cama, nu como era seu costume dormir. Um frémito, uma febre, uma urgência tomou-lhe conta do corpo e do espírito. Seriam umas quatro da madrugada. Levantou-se da sua cama de eterno solteiro e saiu à rua nu, tal como veio ao mundo. Fosse pela visão do luar sedutor, fosse pela força da sua juventude, ou mesmo pela ausência do corpo tão desejado, o espírito toldou-se-lhe e teve uma violenta erecção. Quis o destino que àquela hora morta viesse a Maria pelo caminho de casa e o visse naqueles preparos! A Maria ali, àquela hora?!
Estacaram os dois frente a frente, o Zé sem reacção, por um segundo, por uma eternidade, a Maria entre o pânico e a vergonha. Não trocaram uma única palavra, viraram costas um ao outro, e o episódio parecia ter terminado ali. Mas a Maria não esqueceu, tal como o Zé. Maria tratou de falar com uma amiga sobre o que presenciara, com o pacto de silêncio que obrigava a amiga a guardar segredo. Ora é bem de ver, a função do segredo não é o de ser guardado. Pelo contrário, ele tem a função oposta de fazer circular as estórias obrigando toda a gente a fingir que não sabe. Não havia que enganar, o Zé era mesmo um Lobisomem e preparava-se nesse momento para sair e cumprir o fado. É nessa altura que uma mulher pode quebrar o encanto: tem que chegar à roupa dele e virá-la do direito. Mas ela corre um perigo enorme, já que o lobisomem presente que o está a ser feito e imediatamente regressa para atacar a mulher com a ferocidade do bicho em que se transformou. Como é de supor, nem a Maria nem nenhuma mulher alguma vez se afoitou para quebrar a sina do Zé.
Havia ainda outro indício: o Zé tinha comprado um pequeno terreno na periferia da aldeia, onde se isolou. Fez aí a sua casa, e num pedaço anexo de terra arável e com água fez uma horta, um pomar e um jardim. Juntamente com outros pedaços de terra nas redondezas arrancava da terra o sustento, jamais tendo conhecido a fome. Para maior desconfiança da aldeia, o Zé nunca fazia mal a qualquer animal: já se sabe, ser homem significa ter coração duro e desapiedado. Os animais inferiores eram para ser dominados e comidos. Ora o Zé vivia rodeado dos seus bichos que tratava com carinho: o burro, uma matilha de cães e um número infindável de gatos. Jamais alguém o viu maltratar qualquer ser vivente: nem um pardal que lhe roubava o trigo por alturas da sementeira ou da colheita, nem o melro que lhe picava a fruta por alturas do Verão. Nada: no coração do Zé não cabia maldade, e se havia ás vezes algum fel, não nasceu ali, foi plantado pela aldeia que aceitava mas não lhe perdoava a sina e que o Zé evitava. Durante o dia preferia ficar em casa a jardinar, outros assuntos tratava-os à noite, trilhando caminhos que evitavam a aldeia.
O Zé isolou-se como tantos outros homens por esse Portugal, por gerações e gerações.
Sim era verdade, o Zé tinha mesmo uma sina. Todos jurariam na aldeia, ainda que em vozes sussurradas, que tal era verdade. Mas a verdade tem graus, e noutro grau todos sabemos que homens não se transformam em bichos nem saem em noites de lua cheia uivando ou grunhindo. A sina do Zé era outra: crime inominável e pecado sem perdão, mas a que deus ou a natureza fadara: o Zé era homossexual. Jamais sentiu desejo ou se interessou por mulheres, e tal sina podia ser aceite, mas tinha que ser simbolicamente transformada. A natureza selvagem, o sexo real ou imaginado, criminoso, estéril e inútil à reprodução social não tinha assento no mundo de então. Antes lobisomem, fera selvagem com alma de homem, do que simplesmente homem que se interessava por outros homens.
Da sua casa o Zé continuava a ver a linha do horizonte e o mar de sempre. Morreu velho, com um gato no colo e rodeados dos seus cães, enquanto o sol mergulhava na vastidão do mar. No seu último suspiro sonhava que atingia finalmente a linha do horizonte. Que a felicidade prometida quando pela primeira vez fitou aquela vastidão de águas finalmente chegara. Que agora sim estava acompanhado pela presença que por toda a vida desejou.
Quando partiu o velho gato saiu vagarosamente do colo do dono. Ele, melhor do que qualquer pessoa, sabia que o dono entrara na derradeira viagem. Fez o seu trabalho. Retribuiu ao seu dono o calor e conforto que sempre recebera, ajudando-o a partir sereno.
Nunca saberemos se os anjos existem. Nunca saberemos de que se disfarçam quando vêm à terra. Nunca saberemos os segredos insondáveis do mundo, onde ás vezes a natureza manda uma coisa e a moral manda outra.

Recado aos que negam a ciência

Em memória de Marília Caldeira, de quem não voltarei a escutar a frase reconfortante: “mano, eu entendo tudo o que escreves”.

"Sabem do que é feita a ciência, meus amigos?”
Sentem o quanto dói construir o saber?
A ciência é feita de tentativa, erro, busca de conexões lógicas, teoria, hipótese, método, factos, medidas, aferições e inferições, validação por pares, ensaios, observações, angústia, desalento, negação das paixões, negação do Ego, abnegação, sacrifício, e sobretudo muita solidão.
Quando abrem um livro de Física, de Biologia ou de Astronomia, além da glória dos nomes que triunfaram num teorema, numa fórmula matemática, num modelo cosmológico, descritos numa linguagem simples e elegante, sentem a angústia e a solidão de quem sacrificou a vida para nos deixar essa dádiva?
Na construção da ciência vejo Marie Curie a morrer de cancro, por conta do material radioactivo que estudou durante anos. Vejo Newton dentro de um quarto escuro a tentar recuperar a visão, depois de se ter exposto ao exercício perigoso de observar o Sol directamente. Vejo Darwin angustiado pelo medo de expor à sua esposa, tão religiosa, a sua teoria da Evolução das Espécies. Vejo a sociedade londrina a escarnecer, do alto da sua ignorância atrevida, a imagem do “Homem descender de um macaco” Amesquinhavam a grandeza de Darwin por conta da mesquinhez do seu próprio Ego. Vejo Hipática a chorar a bela biblioteca de Alexandria, destruída numa pira infame, ateada por quem não queria outra verdade que não a “verdade” do seu delírio. Sinto o crepitar da madeira e dos papiros queimados, levando consigo a vida de Hipática e o saber do mundo antigo! Sinto os passos cansados de Erastótenes, que mediu sombras e distâncias e com isso determinou o tamanho da Terra.
Vejo Kepler angustiado, a mendigar as observações do mestre Tycho Brae, triste por ter que deixar de lado o seu sonho de esferas perfeitas, rendendo-se à evidência das observações e dos seus cálculos que demonstravam que os movimentos dos corpos celestes são elipses e não esferas.
Empolgo-me com a coragem quase insana de Edward Jenner, que arriscou a vida do seu próprio filho inoculando nele a varíola bovina. Com isso descobriu a primeira vacina que erradicou a temível varíola humana, doença que matava milhões de pessoas. Hoje é um dos triunfos da medicina, a erradicação de uma doença infecto-contagiosa devastadora.
Vejo Albet Einstein no final da vida, pacifista, contrário à bomba atómica que ajudou a criar.
Sinto o desalento de Clair Patterson, que lutou uma vida inteira para demonstrar que o chumbo é venenoso, tendo por colossal inimigo a indústria petrolífera. David contra Golias.
A ciência é feita de tentativa e erro, de solidão e angústia. Ela assume os seus erros, a sua dificuldade em arredar o Ego do seu trabalho. Ela aceita que um determinado modelo possa um dia ser melhorado por outro mais elaborado ou mais abrangente. Einstein não negou Newton, acrescentou-lhe algo.
No século XIX deitaram-se colecções inteiras de meteoritos para o lixo, porque a incipiente ciência da altura negava a possibilidade de haver queda de pedras vindas do céu. Sim, a ciência e os cientistas não são imunes à crença. Ela é feita por homens e por mulheres comuns que fazem coisas incomuns, e que ás vezes podem ceder à tentação: uma medida adulterada de emissões de gases poluentes aqui, uma “medicina alternativa” ali, uma medicina “quântica” acolá, são tentações que o “vil metal” coloca amiúde no caminho de muitos investigadores.
A ciência não oferece verdades absolutas, os seus modelos são quase sempre provisórios.
A ciência não tem respostas aos porquês da vida, mas é excelente a responder aos “comos”: como funciona a Biologia, a Química, a Astronomia, por exemplo.
Claro, ela assume que não pode responder aos “porquês”: porque existimos, porque sofremos, de onde viemos, para onde vamos. Este é um campo que a ciência deixa para filósofos ou clérigos.
Foram necessários milénios para erguer o edifício elegante e sólido da ciência. Milhares de homens e de mulheres sacrificaram as suas fantasias mais doces em prol de uma verdade sólida mas cruel. Se hoje contamos com a medicina ou a tecnologia moderna que nos proporcionam um bem-estar que gerações inteiras apenas puderam sonhar foi porque milhares de pessoas tiveram a coragem de olhar o mundo como ele é, e não como gostariam que ele fosse. A magia da ciência talvez seja essa: foi por ver o mundo dessa forma que o puderam afinal transformar em algo mais próximo daquilo com que sonharam, sem na generalidade das vezes terem beneficiado com isso. Se hoje temos medicina nuclear, também a Marie Curie o devemos. Ela deu a sua vida para que outros hoje vivam mais e melhor.
Se acham que ser cientista é apenas o momento de glória do investigador que vai à televisão descrever a sua descoberta ou o seu triunfo, desenganem-se. A ciência, que tu ás vezes renegas por medo da sua complexidade e por desejo de que o mundo seja aquilo que tu queres que ele seja e não aquilo que ele é, é feita de trabalho árduo, solidão e desalento, onde o cientista muitas vezes cai e se reergue!
Quando negas a ciência, desdenhas de milhares de vidas que se sacrificaram por ti e pelo teu bem-estar. Quando recusas uma vacina por medo e ignorância retiras significado à vida e ao trabalho do investigador, e colocas em risco a tua vida e a da comunidade apenas porque o teu medo falou mais alto do que a razão.
Os pseudo-cientistas e charlatães que te vendem ilusões de produtos naturais “bons” contra produtos químicos “maus”, “embrulhadas” em linguagem pseudo-científica, vivem do teu medo e à custa de cada homem e mulher que se sacrificou para determinar como o mundo físico realmente funciona e para te proporcionar as ferramentas que te permitem viver melhor do que a maioria da humanidade alguma vez sonhou viver! “Homeopatia” ou “Medicina quântica” são apenas engodos disfarçados de ciência. E se a mezinha da tua avó funciona - e tantas vezes as mezinhas dos antigos funcionam! - só é necessário passar essa mezinha pelo crivo da ciência. Se se comprova a eficácia, passa de mezinha a medicamento. Foi esse o processo de síntese da aspirina e de milhares de outros compostos com eficácia médica comprovada!
Se entenderes o que é a ciência e o seu método, a sua honestidade, validade e força, honras os milhares de homens e de mulheres que trabalharam em prol desse conhecimento por muitos séculos.
Quando entendes e aceitas a validade do seu trabalho dás sentido e eternizas essas pessoas!
Quando compreendemos e aceitamos a verdade dos factos e com eles conseguimos fazer um mundo melhor, damos sentido à vida e à angustia solitária de cada cientista, e com isso damos sentido e dignidade à nossa própria existência!
Porque a ciência é a mais sólida construção do espírito humano, perante ela o delírio e o Ego repudiam e renegam, mas só o fazem porque sabem que não detêm a razão nem a verdade dos factos. É sobre a verdade que a Humanidade se pode erguer, construir e ganhar significado, longe da lama primordial de um lago primevo de onde os nossos ancestrais saíram a rastejar há milhões de anos.
Se tivermos a coragem de sacrificar os nossos sonhos mais doces em prol de uma verdade cruel, no fim temos como prémio as ferramentas para mudar essa realidade angustiante. Esse é porventura o maior triunfo e a maior dádiva da ciência!

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Tempo antigo

Lembraste-me agora de um tempo antigo, embora para mim pareça que foi ontem: há na Lourinhã uma quinta milenar, a quinta da Moita longa, a uns 2 quilómetros da casa dos meus pais. A quinta deve ter tido origem durante a ocupação romana, como atesta o bosque de loureiros e a muralha romana. Um tal cônsul romano de nome Laurus terá dado o nome à Lourinhã. No limite da quinta, e num vale cavado corre um ribeiro que esconde umas ruínas interessantes: um tanque enorme de pedra encimado por uma fontainha, um poço cheio de lodo, muitos choupos, e juncos, muitos juncos. Era aí que o meu pai e o meu tio Armando iam todos os anos apanhar os ditos juncos por alturas de Agosto. Mais tarde esse junco seria usado na empa das vinhas. é desse tempo que agora recordo, os homens a arrancar junco dos charcos, as mulheres sentadas à sombra fresca do choupal a escolher as melhores plantas, e as crianças - onde me incluía - a brincar no ribeiro e nos charcos, a apanhar peixinhos e cobrinhas de água, ou enguias que os adultos fritavam para o almoço. Posso fechar os olhos e retomar a esse tempo feliz. Sinto o cheiro da terra quente e húmida, fértil como só a terra rica em água e húmus consegue ser. Vale pequeno e esquecido, hoje totalmente perdido entre silvados. Restos de um tempo menos antigo, (só tem mil anos), em que os monges e engenheiros da ordem de cister secaram aquelas terras pantanosas, onde hoje restam os vestígios de pedra desse esforço que fez recuar o mar mais de uma dezena de quilómetros, até à Areia Branca. Para mim ficou o tempo feliz da infância breve. Ainda hoje, quando passo por um jardim que esteja a ser regado, ou onde a relva esteja a ser aparada, retorno de imediato ao tempo da terra quente a cheirar a seiva fresca, aos risos felizes de crianças e adultos, à vida que então corria doce e despreocupada.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Linguagem simbólica - Religião, e psique - Uma visão antropológica



Ok, vamos falar do simbólico então? Boa. Para isso vamos recuar um pouco no tempo, até há 100 anos atrás. Nessa altura um senhor chamado Freud escreveu um livro chamado "Mal-estar na Civilização" (existe traduzido para português brasileiro). A certa altura Freud descreve de forma clara a realidade humana: vivemos num mundo aflitivo, sofrido, assustador: ele identificou claramente as três formas de sofrimento: a dor física, a noção de que somos mortais, e a consciência de que as relações com outras pessoas implicam necessariamente sofrimento. Contra esta consciência de uma realidade aflitiva, o Ser humano ergue uma outra realidade: fantasia sobre um mundo que nega esse sofrimento. Mais, passa a acreditar de forma individual e colectiva nessa fantasia, e a isso os cientistas sociais chamam delírio. Viver num mundo imaginário, como se ele seja real, define-se desta forma. O que nós temos observado é que o Ser humano é profundamente delirante. Alguns exemplos de delírios são o "meu Coríntias", ou o meu Benfica, o "meu partido político", ou, mais sensível, a minha religião. O delírio tem características interessantes: nunca se reconhece como tal. Por isso é que os deuses do hinduísmo são um delírio para um Cristão, mas acreditar que um homem que morreu pregado numa cruz e ressuscitou ao fim de 3 dias é a mais pura as verdades. Aliás, a ciência nunca relatou tal fenómeno. Ele só existe na imaginação de alguns, na fé, na vontade de acreditar, e não porque o tenham verificado ou aferido, mas simplesmente porque querem acreditar nisso. Nesta matéria, tudo o que o crente não quer é a possibilidade da aferição de tal afirmação. As pessoas religiosas têm um compromisso com as verdades absolutas, com os porquês, com a sua fé. A ciência não tem nenhum compromisso com essas verdades: elas são metafísicas, logo não podem ser medidas nem quantificadas. O que a ciência busca é os "comos"; como acontece determinado fenómeno, qual a relação de causa-efeito, enfim, a ciência tem um compromisso com as realidades tangíveis, com as verdades mais ou menos frágeis do mundo que pode ser medido e quantificado. Ora, as pessoas detestam essa incapacidade da ciência de dar respostas ao absoluto. Os modelos da ciência explicam muito bem os mecanismos de funcionamento do mundo, mas os seus modelos são sempre provisórios. Coisa chata, vamos lá a correr para o conforto das verdades absolutas dadas pela fé ou pela religião. Agora o simbólico: é mais ou menos consensual que a maioria dos nossos processos mentais ocorre de forma subconsciente ou inconsciente. Muito pouco do que pensamos passa pelo crivo da consciência e da razão. É o famoso iceberg da psicologia, onde 90% está debaixo de água, e apenas 10% é processado de forma consciente pela mente. Tudo o que se passa no subconsciente e tem que ser comunicado entre pessoas é codificado de forma simbólica. Imagine que alguém quer dizer perante a comunidade que quer fazer sexo com uma parceira. Imagine ainda que se trata de um par de cristãos: eles vão a uma igreja e casam-se. Perante qualquer um deles a união está a ser feita perante deus. Ora, nós não podemos levar uma balança para aferir quanto é que o tal deus presente pesa, nem uma fita métrica para lhe medi a barriga. A melhor aproximação que podemos ter da imagem desse deus é uma pintura de um velho barbudo e de ar severo pintado no tecto da Capela Sistina. Desta forma, enquanto cientista, deus é uma realidade completamente vedada. Mas já quanto ao que se passa do outro lado do altar, o cientista já pode dizer alguma coisa: o que se pode medir e quantificar é a presença dos noivos, o padre e os convidados. O que em termos sociais e simbólicos se está ali a passar é outra coisa: é a legitimação de uma união espiritual e física de duas pessoas. A introdução de uma aliança num dedo é uma cópula simbólica perante as testemunhas: o dedo é o pénis erecto, a aliança é a vagina. Aquelas duas pessoas estão a dizer simbolicamente que irão para a cama juntos fazer sexo e filhos (algo que o grupo social em que se inserem terá necessariamente de controlar, os controlos sociais mais importantes para a nossa sobrevivência são a produção de bens e a reprodução), e as testemunhas estão a afirmar simbolicamente que tomam conhecimento de tal facto e aceitam e legitimam isso. A maior parte da comunicação entre pessoas não é feita por linguagem corrente, mas sim por linguagem simbólica. Imagine a figura de Nossa Senhora, ou como nós dizemos com todas as letras, a nossa mãe do Céu, a nossa mãe divina. Se reparar-mos é a nossa mãe, a quem nós negamos ser um ser sexuado. É muito difícil imaginar a nossa mãe a fazer sexo, não é ? Então, como falar de sexo quando tal não é permitido? De forma simbólica! Escondemos os caractéres sexuais, como por exemplo os seios. Para dizer que mulher e mãe, colocamos o sexo feminino sob a forma simbólica de uma rosa! Se alguém quiser falar do sexo feminino num contexto mais sério (ou sagrado), não poderá dizer "eu gosto muito de vagina)! Mas como diz o Gibet Becaup, "L'important c'est la rose". Aí já se torna legítimo falar do sexo da mulher nesse contexto. Como podemos ver, muito haveria a dizer sobre a linguagem simbólica. Mas os cientistas têm o terrível defeito de questionar tudo, ser observadores, lembrar o que não lembraria ao diabo! Para quem domina a língua inglesa, e se me permitem, recomendo vivamente um livro de antropologia chamado "A Floresta dos símbolos" de um antropólogo britânico chamado Victor Turner" Lamentavelmente nunca encontrei a tradução para português, nem mesmo português do Brasil (nisso o Brasil vai muito à frente de Portugal, costuma traduzir muito mais do que nós). O confronto entre crentes e não crentes é um conflito interessante, mas estamos talvez a comparar coisas incomparáveis: o agnóstico procura abordar o mundo de uma forma muito diferente da do crente. A generalidade da Humanidade construiu um EGO enorme, em oposição a toda a evidência vivida: Segundo a bíblia somos feitos à imagem e semelhança de deus, ou seja queremos ser deus. Tendo em atenção todo o historial de violência sobre a qual a humanidade se erigiu, que belo deus nós arranjamos! O nosso Ego continua enorme, não só fomos feitos à imagem de deus, como ele nos pôs no centro da criação, do universo! Mais tarde, no século XVIII o iluminismo disse-nos que nos erguíamos acima dos restantes animais, e que éramos racionais. O que constatamos agora é a existência de pelo menos 3 feridas egoicas na Humanidade: Darwin demonstrou que não somos feitos à imagem e semelhança de um deus, mas antes somos descendentes de símios ancestrais. Copérnico retirou-nos do centro do universo: afinal não somos centro de coisa nenhuma. Por fim Freud desconstrói a imagem de um ser racional. O Ser Humano continua a ser um Ser profundamente irracional. Sabemos disto, mas não gostamos e por isso recusamos, fugindo para a fé. Deixar de parte os nossos medos e procurar ver um pouco mais longe pode parecer um exercício assustador, mas no fim pode também ser muito gratificante. Isso não significa que as questões da metafísica não estejam presentes: estamos sempre condenados a ela. Mas podemos pelo menos tentar sair dessa zona de conforto e afrontar o medo do mundo. No final podemos ter uma perspectiva bem mais realista do mundo e do universo. Contra o medo, que condenou mulheres à fogueira, perseguição e ódio os Judeus, e a um role infindável de crimes a que o medo normalmente leva. Viva-mos e deixemos viver: em 100.000.000 de estrelas da via-láctea, cada ser é único e precioso. E os nossos desejos e crenças não pode nem devem impor-se aos demais. Aceitar as diferentes formas de pensar e de viver pode permitir um mundo mais justo e mais fraterno. Eu acredito e deixo de acreditar naquilo que quero. Tenho a minha espiritualidade, mas recuso partilhá-la com outros, porque a essa partilha se convenciona chamar religião, com muitas ovelhas seguindo o pastor e sendo controladas por ele. A isso eu chamo controlo social, e a isso eu digo NÃO, pagando por isso o preço da solidão. Mas antes lúcido e só, do que acompanhado no delírio do grupo. Abraço fraterno.

domingo, 23 de setembro de 2012

Um dia perguntar-me-ás

Um dia, sei disso, corro o risco de me cruzar contigo, e que me perguntes: “porque não vieste? Eu queria tanto!” E aí eu vou ter que te responder: porque para ir ter contigo, teria que responder a perguntas que não queria ouvir. Que iria ser julgado por quem não tinha o direito de o fazer, não por aquilo que sou, mas pelos fantasmas que existem na cabeça dos outros. E tu dirás: “Mas eu era apenas uma criança que queria um pai, porque é que tive que ser eu a receber o castigo?” E eu só poderei pedir-te perdão, pela falta de coragem para enfrentar o mundo. Eu sei, às vezes estamos sozinhos contra o mundo, e no entanto sabemos que somos nós que estamos certos. O meu grande e imperdoável pecado foi apenas a falta de coragem. E por isso enfrentas-te o mundo sozinho, quando mais querias estar acompanhado, quando querias ter caminhado de mão dada comigo.

sábado, 4 de junho de 2011

Força Zé!

Faço parte da geração que cresceu a ouvir a música dos Xutos e Pontapés. Fazem parte da minha existência, como o azul do Tejo. É assim, existem e nem se questiona. O que eu sei é que no caso do Zé, foram certamente muitos anos de "xutos" e alguns "pontapés" que deixaram mossa. O resultado foi um fígado falido, e a necessidade de um transplante hepático. Ora, eu não quero que o Zé morra nem que os Xutos desapareçam. Só posso desejar força ao Zé. Mas paira uma dúvida na minha mente: sei que os médicos se debatem com um déficite crónico de órgãos para transplante. Sei também que quando aparece um candidato a transplante, os médicos vestem a pele de deuses e decidem quem vai receber o precioso órgão doado. E sei que um dos critérios de recusa passa por saber se o receptor passou uma vida a desprezar e a maltratar o seu corpo. Ora o Zé passou mesmo a vida entre "xutos e pontapés". Não estou certo que ele recebeu o seu novo fígado apenas por ser quem é. E isso causa-me uma dúvida inquietante. Será que algum anónimo que nunca "xutou" não morreu ou vai morrer por falta de um fígado, só porque teve a infelicidade de ser um simples anónimo?
Eu quero - e acredito todos nós - que o Zé fique entra nós, que a música dos Xutos continue. Mas espero que os aprendizes de deuses não se deixem apaixonar e a pôr de lado a sua ética, deixando que alguém morra, só para que a música dos Xutos continue. Talvez não, talvez esteja a ser pessimista.
Por isso digo de novo, Força Zé!

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Fogo

Aquele que me atraiu e ainda me atrai. Mas agora já não corro para ele. Hoje sei que queima, é mortal. Prefiro a cobardia da distância, ou talvez de apenas o idealizar. Mas não me reaproximo.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Aquilo que não saberás

Pedro Bernardo, Espanha, 22 de Maio de 2011

Aquilo que não saberás, é que o que para mim ficou de melhor deste fim de semana de voos por terras de Espanha, não foram exactamente os voos: o melhor mesmo foi aquele passeio nocturno até ao ribeiro, entre silêncios e pirilampos. Sem quase nos conhecermos, e eis-nos disponíveis para a partilha tranquila de sonhos, passado e presente. Sem expectativas, sem o peso nem as amarras de qualquer compromisso, duas pessoas pouco mais que estranhas, mas numa sintonia cúmplice de quem sente o que fala. E sobretudo, sem medo.Que as térmicas te levem alto, em voos de sonho realizado.
Ficou por cumprir o abraço fraterno.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Não basta uma vida.

Nunca como hoje me pareceu tão claro: uma vida não basta! Serão necessárias muitas vidas para resolver todos os desencontros de uma só.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Laboratórios Sociais - Imperios Inca e Maia

Regressei hoje a alguns textos de Antropologia Política, depois de reflectir sobre o Filme Apocalypto do Mel Gibson. Foi nesta cadeira que estudei dois grandes impérios das Américas pré-colombianas, apresentados em confronto de organização social: O império Inca, baseado na fraternidade: havia estratificação social, mas esta era pouco acentuada. A terra era um bem comum, e o império fornecia sementes para a produção. O exercito controlava as populações, mas não se baseava no uso excessivo da força. O império incentivava as manifestações de alegria, o trabalho era simultâneamente festa. Mais a norte, no Iucatão, outra civilização: os Maias. Um estado construído sobre o terror, a opressão, o medo. É essa realidade que Mel Gibson retrata, do meu ponto de vista, de forma espantosa. Para a Antropologia importa sobretudo o estudo de sociedades tão distintas, em espaços diferentes mas ao mesmo tempo, demonstrando desta forma que a construção de uma sociedade pode obedecer a diferentes padrões. A mensagem pode ser a de que os Seres Humanos podem escolher os seus destinos, as suas formas de organização social.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Corrida de carros

Partia-mos pela estrada sinuosa, cada qual em seu carro. Aceleravas, não conseguia acompanhar-te na corrida. Desafiavas já outros carros para a corrida, enquanto eu ia ficando para trás, impotente, vendo-te cada vez mais longe, enquanto a angústia me invadia. Acordo sobressaltado, com lágrimas nos olhos. Que poder é este que deténs sobre mim, ao fim de tantos anos?! Vai-te embora, não assombres o meu sono!

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Deserto

Caminho pelo meu deserto pessoal, não morro de sede porque os sorrisos dos amigos são como gotas de àgua que vou sorvendo e que me impedem de perecer. Sinto, mas quando sinto estou só. Falo, mas quando falo, estou só. Sonho, mas quando sonho estou só. Ergo os olhos aos céus. Até quando?

domingo, 30 de maio de 2010

Oscilação

Num fim-de-semana de voos nas Bicas, -com muita correria para ajudar nos bil-lugares- parei por breves instantes, surpreendido com a magia de gestos simples: um professor de parapente de outra escola que eu só conhecia de vista, mas que já sabia o meu nome (!) As voaças e as feijoadas de marisco na Azóia, o "brazuca" que ia brincando com um bumerang enquanto o vento não o deixava ir para o ar, e que no fim me convidou para um dia ir voar no seu país. As coca-colas no fim do dia no restaurante das Bicas, e o gesto simples da mão estendida do mestre Pinto, que eu não percebi no primeiro instante que era para mim, e é claro, logo que se fez luz, vão mais cinco. Viva a vida. O sorriso simpes e afetuoso do Homem "do mê cão Stud ", o abraço cumplice da nossa campeã lourinha, as voaças de sonho entre amigos de há um ano ou dois, mas que já são velhos amigos. A confiança no meu mestre enquanto o ajudo a reduzir a lista de espera para bi-lugares, o por-do-sol no final do dia ainda nas Bicas, entre conversas, fotos, risos e silêncios. Por um instante o pêndulo parou de oscilar, por um instante senti o vislumbre da perfeição, em tudo o que foi dito e sentido, entre gestos que têm a grandeza das coisas simples. E a promessa vai-se cumprindo. Voo de corpo e de alma.

sábado, 22 de maio de 2010

Voar é preciso

Voei na Arrábida, voei na Lua e por entre galáxias, almoçámos nas Bicas, ficámos mais próximos. E isso é o que mais importa. Porque estamos vivos e sabemos viver.
Voa miúda, voa sempre, não deixes que te acorrentem os pés à terra! É bom voar contigo!

segunda-feira, 29 de março de 2010

Regresso ao futuro

Sabes, tenho regressado muitas vezes em sonhos à casa grande de Lisboa. Mas nos meus sonhos, essa casa já é passado. Embora a vida ainda seja a mesma, tenho já outra vida. Estou de regresso ao futuro.

O objectivo agora é mais simples. Apanhar boleias de térmicas e subir alto pendurado no meu trapo. Ainda assim, as memórias estão cá. Vivas.